Do que o fogo não queima
Se da onda temerosa que começou a assolar a Europa e o mundo em 1914 consideramos apenas a espuma enxovalhada, não ha maior infamia, nem maior crime e indignidade. É uma degradação de incomensuravel profundeza, é a terra lavada em sangue pela ganancia abjecta das tiranias da sordidez.
Um publicista de notavel merecimento e admiravel imparcialidade, G. Lowes Dickinson, compreendendo a opinião de milhares de homens, o desalento de muitos dos mais sinceros e cultos, a revolta de alguns e o cinismo inalteravel de uma minoria poderosamente armada, resume neste esboço a situação:
«A guerra veio da rivalidade entre os estados na disputa do poder e da riqueza. Isto é universalmente aceite. Sejam quais forem as diversidades de opinião que prevalecem nos diferentes paises interessados, ninguem pretende que a guerra tivesse origem em qualquer necessidade da civilização, em qualquer impulso generoso ou ambição nobre. Conforme o conceito popular da Inglaterra, nasceu a guerra unica e exclusivamente da ambição da Alemanha, vinda á conquista de territorio e poder; e, conforme o conceito popular alemão, nasceu da ambição da Inglaterra, correndo a atacar e destruir a riqueza crescente da Alemanha e a sua força. Assim, para qualquer dos beligerantes, a guerra mostra-se como imposta por uma pura perversidade, e sob nenhum aspecto tem justificação moral de especie alguma. Estes conceitos, na verdade, são demasiado simples quanto aos factos; mas... a guerra procedeu da rivalidade de imperio entre as grandes potencias, em toda a parte do mundo. A contenda entre a França e a Alemanha no governo de Marrocos; a contenda entre a Russia e a Austria no governo dos Balkans; a contenda entre a Alemanha e outras nações no governo da Turquia—foram estas as causas da guerra.
«É a cobiça de mercados, concessões e colocação de capitais que está por detraz da politica colonial conduzindo ás guerras. Os estados concorrem ao direito de explorar os fracos, e nesta concorrencia os governos são movidos e tutelados pelos interesses financeiros. O inglês foi ao Egito por causa dos prestamistas, o francês foi a Marrocos por causa do minerio e da riqueza. Em todo o Oriente, no mais proximo como no mais distante, são as concessões, o comercio e os emprestimos que levaram á rivalidade das potencias, a guerra sobre a guerra, ás expedições punitivas e, ironia das ironias! ás indemnisações, extorquidas como uma nova forma, e especial, de roubar os povos que se levantam esforçando-se por se defenderem dos roubos. Por um momento, as potencias combinam suprimir a vitima comum; no dia seguinte, lançam-se umas sobre as outras a disputar o espolio. Estes são realmente na sua nudez os factos sobre as questões entre os estados a respeito da politica comercial e colonial. Emquanto a exploração dos paises menos desenvolvidos fôr dirigida por companhias, não tendo outro fim senão os dividendos, emquanto os financeiros determinarem a politica dos governos, emquanto as expedições militares acabando em anexações forem postas aos hombros do publico por motivos que não podem confessar-se, hão-de acabar em guerra as nações que começaram pelo roubo, e milhares e milhões de vidas inocentes e generosas, as melhores da Europa, hão-de perder-se inutilmente, sem fim algum, porque interesses sinistros jogaram na sombra a paz do mundo em proveito do dinheiro das suas algibeiras.»[2]
Sordidez, miseria, crueldade, uma tirania de scelerados sacrificando a ruins paixões de dominio, avareza e sensualidade as multidões inocentes, o trabalho, a candura, a honestidade e o heroismo—cifra-se nisto a historia militar do mundo. Estas seriam as causas da guerra, as da ultima como as de quantas a precederam, esta a sua unica e eterna maldição. Só o que se viu com as companhias de navegação, e é publico, desilude os menos crentes nas infamias da guerra. Quando as familias dos que combatiam e morriam nas trincheiras, para gloria e proveito dos que os mandavam, sofriam fome e frio, havia emprezas de navegação, e tambem dos que mandavam, que faziam dividendos de 65 por cento, á custa da anciedade e atribulações daqueles que criaram os filhos imolados nas batalhas. As monstruosidades economicas alimentam-se daquele mesmo sangue que as monstruosidades da soberba derramam desapiedadamente no chão esteril dos combates.
Não duvidemos, a guerra e a ignominia são filhas do mesmo ventre.
Mas não duvidemos tambem de que, onde a guerra se peleja e a ignominia corre a fazer as suas presas; outras forças se erguem que as dominam e confundem. E sobre os destroços da politica, de ordinario infame, floresce de continuo a consciencia moral, tão pura na aspiração como lenta mas inflexivel no crescer.
Estranha sujeição das potestades! Essa fortaleza satanica não é só por si tão robusta que prescinda da protecção do bem dos povos, da isenção, do patriotismo, da fortuna moral dos homens e das nações, e de outras e infinitas sombras etereas que vivem, desarmadas e fracas, apenas em os nossos sonhos. Para que as ambições da sordidez prevalecessem e colhessem o seu quinhão na guerra em que nos crucificaram, foi-lhes necessario invocar interesses urgentes da liberdade e da dignidade humana. Pressentiram que só por esse compromisso levariam os exercitos ás batalhas. Por uma singular escravidão, a sordidez sujeitou-se á nobreza. Talvez mentindo astuciosamente, com uma astucia vulpina, toda de impostura; mas sujeitou-se, não sem ignorar de que por força terá de cumprir muito daquilo que por mentira assegurou. A sordidez tem em seu poder as armas e o fogo, quanto é necessario para devastar a terra e a embeber no sangue. E essa mesma sordidez armada, sentindo fugir-lhe o poder perante qualquer cousa que o fogo não queima, aceitou a tutela e imperio de forças imponderaveis e jurou-lhes fidelidade. A força fisica na sua maior opulencia destrutiva não sabe combater, sente-se insuficiente, se não tem em seu apoio um principio moral que a legitime. Para que os soldados marchassem contra a Alemanha, tornou-se necessario convencer os povos de que a Alemanha praticava um crime e meditava as atrocidades de um despotismo avaro, absorvente, insaciavel.
Eis aí o facto capital de cuja compreensão depende a determinação do caracter e mais profunda significação desta ultima fatalidade que pôs as nações em guerra—não são os principios que dependem das armas, são as armas que dependem dos principios. Pelo gráu em que as armas dependem dos principios se afere a altura da civilização de uma comunidade e de uma época, e pelo desrespeito ou pela corrupção dos principios se julgará da profundeza da sua degradação. O progresso da humanidade é puramente materia de desenvolvimento e natureza do espirito que a penetrou e rege. Disso dependem as guerras; os seus incendios dependem do que o fogo não queima. Se se ateiam, é porque aquela essencia eterea lhes falece; se abrandam ou se apagam, foi porque ela os envolveu. «Por muito que condenemos os chefes negligentes e as castas desapiedadas que vivem pela guerra, a fonte real do mal é o sentimento popular em que se apoiam. A lição que aí temos a aprender, é que as doutrinas e paixões enraizadas, de que essas desgraças provêm, só podem ser removidas por um lento e firme labor das forças espirituais. Aquilo de que principalmente se carece é a eliminação dos sentimentos cujas instituições alimentam a inveja e o odio, e preparam os homens para a desconfiança e para a agressão.» (Lord Bryce).