«Que olhassemos para a Alemanha, prégava-se. Lá é que se sabia. As suas vitórias e prosperidades eram uma questão de escola, e de sciencia, dessas muito faladas e desejadas e louvadas coisas práticas. Era o mestre escola que tinha vencido em Sadowa. O germanismo e as suas glórias teriam sido apenas questão de laboratorios, retortas, lentes, microscopios, raizes quadradas e taboas de logaritmos.

«Sciencia, muita sciencia, sempre sciencia. Estava aí o elixir da vida, a fortuna das nações e a felicidade dos homens. Latim, grego, Aristofanes e Cicero e Tito Livio respeitaveis massadores que tomavam o tempo á rapaziada e não lhes deixavam lucro que valesse um real. Abaixo as inutilidades. Passassem aos museus respectivos.

«Lá encontrariam conservadores habilitados que as guardassem no logar que lhes competia, para recreio de eruditos. Para o comum dos mortais não tinham nada de aproveitavel.

«Assim fomos andando, nesta fé, de reforma em reforma, a dar ar e luz aos nossos institutos e liceus, sempre á espera de vermos sair de lá os atletas que haviam de renovar as nações. Mas os atletas tardavam. Em seu logar, apareciam mesmo muitos enfermos. Começamos a desconfiar de que a sciencia não dava o que prometia, e a suspeitar de que tinhamos errado na escolha, passando ao deposito das inutilidades um arsenal de belas armas.

«Coisa curiosa! A primeira vez que ha dois ou tres anos encontrei um escrito moderno atacando abertamente os abusos do ensino chamado scientifico e o abandono das letras classicas e das antigas humanidades, foi em um jornal socialista radical. Os que vão na frente do movimento politico, os que reclamam e exigem mais profundas reformas, as pedem em nome da justiça, e pelo seu radicalismo bota-abaixo pareceriam os mais propensos a banir todas as velharias das sociedades contemporaneas e futuras, seriam esses os primeiros a advogar a restauração de processos e intuitos da educação e ensino, postos de parte e condenados por empecilhos do progresso.

«A educação classica refugiando-se nas fortalezas do socialismo radical, que se poderia muito logicamente supôr todo impregnado de radicalismos scientificos, era fenómeno para estranhar; e, na minha ignorancia e despreocupação, de facto estranhei, no primeiro momento.

«Mas em poucas linhas me desvanecia a confusão aquele artigo que acabava de lêr.

«O quê?! dizia. As humanidades eram más? Onde se formaram os homens da Revolução Francêsa? Onde aprenderam os principios de liberdade, igualdade e justiça que proclamaram e por que se sacrificaram até ao martirio, para nolos transmitir triunfantes e para nos remir de aviltada condição?

«Donde brotou e onde firmava as suas raizes essa seara unica da literatura romantica?

«Não, as humanidades não eram más. Eram excelentes e suficientes. Os homens que nos deram foram bons, entre os melhores de que fala a historia, e nem outros de superior grandeza podemos desejar e sonhar.