«O discurso convencia-me. Desde o momento em que os homens se criam para os homens, os conhecimentos essenciais do seu espirito e os modos mais nobres do seu caracter hão-de ser humanidades. Preferir-lhes animalidades, reduzir o homem a um vulgar organismo sem diferença fundamental dos seus semelhantes nas espécies animais, ou mais simplesmente ainda passa-lo á categoria mecanica de motor e alavancas conjugadas, destinado a diversas operações de produção e consumo, era uma degradação. Evidentemente, tornava-se necessario ser homem antes de ser bicho ou maquina. Dependia disso a dignidade. Sempre assim se havia entendido.
«Depois, o ensino classico, se era classico, de sua natureza era essencial, partindo do principio que por classico se entende aquilo que em sucessivos séculos e sucessivas gerações se reputou invariavelmente bom ou belo. Abandonar o que de certeza assim era, para o trocar por vantagens incertas, teria sido insensatez.
«A mais passageira reflexão não poderia deixar de concluir pelo predominio do ensino classico. Admitiria que se acrescentasse. Que se eliminasse ou reduzisse, nunca.
«De que todavia agora se trata e o que provoca a campanha incipiente, não é de apreciações abstractas, é dos desenganos da experiencia.
«Não sou tão moço que não tivesse conhecido os homens educados puramente nas escolas classicas da primeira metade do século XIX. Conheci até alguns desses professores de latim espalhados a capricho pelo país, regendo cadeiras singulares dessa disciplina, ás quais as vilas, que as possuiam, atribuiam orgulhosamente o valor duma universidade. Ali se aprendia tudo, imaginavam; e quem de lá saia com louvor do mestre, tinha-se na conta de homem instruido e culto.
«Entre os meus proximos parentes os encontrei. Meu pai não teve outra escola nem outra educação literaria. Aprendeu o latim com o professor da vila em que nasceu, e com essa reduzida bagagem escolar foi para o Brazil, aos dezoito anos. Se mais tarde estudou a lingua francêsa e modernismos correlativos, de que careceu para se pôr a par do seu tempo, nunca lhes criou tanto amor que, quando entrou em maré de comprar livros, deixasse de se fazer forte em classicos portugueses, e dos modernos apreciasse sobretudo aqueles que de classicos tinham carregadas tintas.
«Conheci muitos dos seus amigos e companheiros, camaradas da escola e outros de educação identica, que todos conservavam vivas as tendencias que na mocidade haviam tomado.
«Possuo mesmo muitas cartas de discipulos dessas escolas, e incidentemente tenho tido ensejo de apreciar as ideias que revelam e os caracteres que traduzem.
«Sem matematicas e sem quimicas e fisicas e mais ferramenta dos apuros scientificos modernos, não descubro em que pontos e por que lados os antigos eram inferiores aos modernos como homens praticos, como conhecedores das coisas da terra e seus administradores, como capacidade de reger os homens e lhes tratar os bens.
«Foram esses, os classicos, os discipulos das humanidades tão desprezadas pelos seus filhos, que iniciaram a renovação economica da Europa (e por sinal que com muita coisa excelente iniciaram muita coisa tragica); foram eles que organizaram a fábrica e traçaram a via férrea, que deificaram a maquina a vapor e os teares mecanicos, e tudo isso fizeram não só com uma percepção clarissima dos fins e meios e consequencias, mas com uma fé e um entusiasmo que a prodigalidade de invenções e as maravilhas da industria da nossa era jámais encontraram em igual grau entre os contemporaneos. Não tiveram nem sombra de educação scientifica; nas suas escolas, as declinações dos verbos e nomes tinham uma importancia suprema sobre as quatro operações aritmeticas. Não foi isso, porêm, impedimento a que calculassem com precisão e justeza, quando isso se lhes tornou necessario. Meu pai, latinista apaixonado e aferindo todos os valores literarios pelo classicismo, não deixou por essa qualidade de ser um comerciante previdente, habil e seguro e um belo administrador das instituições economicas em que serviu. Deu boas provas disso. Pois em matéria de literatura dessa especialidade não cansou a vista, quando aliás muito costumava lêr. No seu espolio, entre algumas centenas de volumes, sómente um peregrino «codigo comercial», ali perdido, lembrava o comerciante.