«É que a gente do seu tempo tinha uma concepção muito diferente das necessidades da vida pratica. Julgava-a muito mais acessivel do que hoje a julgamos; parecia-lhe que era questão de simples bom senso, a que todo o homem medianamente educado póde chegar, e muita ferramenta e metralha que nós supomos apuradissima sciencia, deixava-a puramente a cargo da oficina. Guardava-se para aproveitar ou desprezar os inventos que as oficinas lhe ofereciam, segundo as relações de conveniencia ou inconveniencia que lhes encontrasse com os muitos e variadissimos elementos sociais que iam tocar.
«Para êste ultimo papel se destinava. E, como êle era uma coisa essencialmente humana, como a humanidade era o ponto ultimo de referencia de todos os progressos e invenções, o ensino das humanidades lhe bastava, o conhecimento do passado dos homens a inspirava, sempre confiando em que o melhor mestre da vida era a experiencia e da experiencia rezavam abundantissimamente os alfarrabios gregos e latinos.
«Não direi que a gente saída das escolas classicas pensasse isto tão nitidamente, como hoje se nos apresenta. Mas sentia-o e punha-o em pratica, o que foi sem dúvida muito melhor e mais útil. Da sua utilidade colhemos nós os frutos, nós que, cheios de prosapia, emendamos, corrigimos e em grande parte abandonamos por supérfluo o ensino dos nossos pais—esse mesmo ensino que foi tanto ou tão pouco mesquinho, estreito e infecundo que deu de si uma transformação politica como a Revolução Francêsa, uma revolução literaria como o romantismo, e uma revolução industrial como a fábrica moderna.
«O que todos nós poderemos verificar passando os olhos pela correspondencia vulgar dos homens daqueles tempos e daquelas escolas, é o primor de linguagem. Qualquer morgado das selvas mandava um recado ao feitor em termos mais concisos, mais claros e mais belos do que aqueles que hoje usa muitas vezes um professor dirigindo-se ao reitor da sua universidade. Os documentos oficiais, a correspondencia entre as autoridades e a exposição de suas narrações e reflexões são pedra talhada e polida, duma finura de arestas em que não ha linha tremida ou apagada; as ambiguidades, as confusões, os pleonasmos, a arrastada negligencia de quem não sabe ao certo o que diz, eram provavelmente pecados tão graves que um fino instinto adquirido no correr dos séculos os evitara sem mais esforço. Escrevia-se bem; escrevia-se com clareza.
«Adivinha-se a resposta da «sciencia». Virá clamar que o importante é saber, não é dizer. Cheira-lhe a rapé, a alfazema, a côrte e a convento esse cuidado na expressão. Aborrece-o por artificial, pretencioso e vão. Mas outros pretenderão que, se o bem pensar deve preceder o bem dizer, nem por isso deixa de ser certo que para bem dizer é necessario pensar bem, e emquanto apuramos a linguagem e procuramos os melhores termos e a melhor ordem, submetemos o pensamento a um minucioso exame, de caminho o corrigimos, acabando bastas vezes por lhe descobrir erros e faltas de logica que afinal o alteram profundamente e subvertem.
«Por mais que o modernismo scientifico me pregue e fale das suas glórias, eu sempre me sentirei envergonhado das minhas desordenadas prosas perante o falar correntio e limpido dêsses velhotes fradêscos que em duas linhas sabiam dizer o que queriam dizer e por nenhuma outra forma se podia traduzir mais lucidamente. E verificado o milagre e desejando repeti-lo, e convencido dos seus beneficios, não sei que haja modo de o reproduzir sem beber das mesmas aguas que o criaram.
«Sómente me palpita que, por muito que nos apressemos na jornada, quando chegarmos á fonte já lá encontramos uma multidão. Tudo o anuncia. Felizes os que forem na frente.»
[II]
Isto escrevi ha seis anos[14], e, se agora tenho a indiscrição de o desenterrar, não é para fazer registo, em meu beneficio, de antecipações, mas sómente para lembrar como vinha de longe aquela corrente de reacção contra o desvario do ensino meramente scientifico, da qual nas minhas breves tarefas de jornalista fui um passageiro e modestissimo interprete. Quanto então dizia não era meu; era do tempo. Hoje o encontramos no seu natural desenvolvimento, esclarecido e animado por uma experiencia terrivel, envolvido e singularmente revelado no conflicto das nações armadas e em guerra sangrenta, representando a Alemanha, pelos acasos da sua sorte, um gráu maravilhoso de cultura e organisação scientifica, significando a França, com os povos que lhe estão aliados, aquela velha cultura classica que foi tida por insuficiente e ineficaz para realisar as aspirações modernas da civilização, e resultando da oposição destas duas correntes a necessidade de escolha e reforma dos principios fundamentais da educação.
Um artigo magnifico, publicado no Times em fevereiro de 1917 e assinado por Um oficial ferido, põe em termos de perfeita clareza, que convém registar, esta dualidade em conflicto.