São desse artigo estes periodos que vou transcrever:

«A guerra pôs em evidencia certas alternativas espirituais; tornou-as inteligiveis encorporando-as em personalidade. Fez que muitos mil homens, inteiramente isentos de odio contra a Alemanha, preguntem:—O que é que na atitude alemã perante a vida ha que no-la torna intoleravel? Porque é que nós sentimos que a causa da França e da Inglaterra é a causa da humanidade?

«Isto preguntam, e, se são francêses ou inglêses, (latinos ou latinisados, diremos nós), respondem que o que é intoleravel na Alemanha, o que pretere as multiplices excelencias do seu saber e espirito publico, é que ha nela qualquer cousa que grava sinais de morte naquilo que ela toca; qualquer cousa que é a antitese da individualidade, das aspirações pessoais e esforço e sacrificio espontaneo; um espirito que organisa os homens mas não os inspira, que os cultiva mas não os ama, que faz um estado poderoso mas não faz uma democracia nem uma igreja, e que, emquanto os pecados caracteristicos da França e da Inglaterra são os dos homens, fraqueza, paixão e leviandade, os pecados caracteristicos da Prussia, como ela é hoje, são os do demonio, a arrogancia intelectual, a frieza do coração, e o desprezo pelo que é digno de piedade e amor, e ridiculo em a natureza humana... Temos de reconhecer que a luta real, de que esta guerra é apenas um episodio, não é meramente entre o nosso país (a Inglaterra) e qualquer cousa tão instavel e transitoria como a Alemanha moderna, mas entre as exigencias permanentes e irreconciliaveis da alma dos homens, e que o que tornou perigoso o espirito germanico é que ele não é alheio mas horrivelmente identico ao de quase todo o mundo moderno. Porque o espirito do imperialismo germanico é com demasiada frequencia o espirito do industrialismo inglês e americano, com todo o seu culto do poder como um fim só por si, com os seus padrões materiais grosseiros, a sua subordinação da personalidade ao maquinismo, o seu culto de uma organisação complicada e mortal para a alma; e o materialismo, que na Prussia se revela na adoração do poder do estado, revela-se na Inglaterra na adoração do poder do dinheiro.

«Não é mais nobre este ultimo, é mais ignobil, porque é menos desinteressado que o primeiro. Não é tão violento, é mais maliciosamente corrupto, e, pelo que respeita á massa do genero humano, quase igualmente tiranico. Mas, ou tome a forma de violencia militar ou a de cobiça mercantil, o espirito do materialismo é um só, e é um só tambem o espirito que lhe resiste.»

«E, se nós sentimos que os direitos absolutos da personalidade, a conservação e desenvolvimento da liberdade espiritual, são dignos de sacrificio em tempo de guerra, igualmente sentiremos que são dignos de sacrificio em tempo de paz. Ora a esfera em que os direitos da personalidade mais claramente estão envolvidos, e onde o que os ameaça é mais evidentemente obra de motivos materialistas, é a esfera da educação.

«A educação oferece, todavia, uma especie de experimentum crucis, uma conjuntura na qual se podem pôr em prova as causas pelas quais afirmamos ter pegado em armas. Pois, por fim, os meritos de uma guerra teem de ser julgados, não pela correspondencia diplomatica que a precedeu, não pelos esforços que se empregam para a ganhar, mas pela especie de civilização que dela deriva, pela habilidade do vencedor em estabelecer, não só sobre o inimigo mas sobre si mesmo, a autoridade dos principios pelos quais alega ter combatido.

«Se, como nós pretendemos, a causa da Inglaterra é a causa de todas as mais altas possibilidades do espirito humano, então teremos de perpetuar essa mesma causa em as nossas instituições sociais, cujo caracter depende do caracter da educação que dermos aos nossos filhos e filhas.»

Uma calamidade sem nome obrigou-nos a preguntar á nossa consciencia para que é que criamos os filhos. Da resposta que ela nos dér, esclarecida pela mais cruel das experiencias, dependerão os fins e processos dessa criação.

O que a experiencia nos diz, ao fim de quase meio seculo de educação impetuosamente scientifica, é que a vida imporia mais pelo que pensamos e sentimos, pelo repouso ou pela inquietação do nosso espirito, do que pelo que dominamos, compreendemos e possuimos, pelo que a nossa acção apreende e pelo que a nossa inteligencia alcança. É isto o que de todo temos trazido esquecido, naquela sujeição dos homens ás cousas que foi a paixão cega da educação scientifica moderna e da especie de cultura que ela produziu; e foi por muito evidente se haver tornado esta subalternisação dos valores morais perante as conquistas materiais que M.me Montessori, com uma penetração profetica, muito antes que a guerra o manifestasse pelas suas angustias, julgou que «o homem que tão maravilhosamente transforma o seu ambiente e curva o universo á sua vontade, não conseguiu transformar-se a si mesmo.»

Nem se imagine que este modo de vêr é o preconceito tradicional do latino e seus derivados e afins, todos impregnados de aspirações de nobreza e heroismo, facilmente trocando o dinheiro e toda a riqueza e a propria existencia fisica pela dignidade do caracter e pela gloria. Além do Reno, onde a força criou o seu imperio e o administrou e acrescentou em menoscabo de qualquer cousa eterea que teve por sentimentalismo e enfermidade, tambem o desengano encontrou os seus arautos. E Eucken, o filosofo cuja elevação de espirito e profundeza de inteligencia são de apreciar e respeitar em todo o mundo culto, sem embargo das paixões de patriotismo que o possam perturbar, não nega a falencia da utopia materialista. Discorrendo sobre as experiencias da guerra e as exigencias do futuro, confessou que a guerra revelou um predominio geral de egoismo, falsidade e cobiça entre todas as nações nela interessadas, mais largamente disseminado do que até aqui se suspeitára. Em seu conceito, a crença na bondade fundamental da humanidade recebeu golpes profundos. A Alemanha orgulhava-se do seu trabalho, mas este orgulho do trabalho, organisação e educação carecia talvez de cousas fundamentais da vida que ele preteriu; em vez de cultivar essas cousas mais profundas e imponderaveis, o alemão acrescentou ás ambições do trabalho as cobiças do prazer. Os desejos do corpo tomaram o logar dos desejos do espirito, e é essencial para uma nação a cultura do senso responsavel dos valores morais, o desenvolvimento de um sentimento que a habilite a distinguir entre o bem e o mal, entre o real e o ilusorio, entre a verdade e a falsidade, entre a grandeza e a mesquinhez. «Não hesitava em dizer que quanto mais cresceu a perfeição do trabalho, mais pequena se tornou a alma... Um homem tem de ser julgado unicamente pelo que de humanidade nele houver.» Quereria vêr a nação mais ardente no apreço daqueles altos e grandes valores da alma, sem os quais nação alguma póde ser verdadeiramente grande, sem os quais nação alguma pode cumprir a sua missão no mundo.