O desprezo a que chegaram esses «altos e grandes valores da alma», que são a medida da dignidade do homem, todos o sabemos e magoadamente o sentimos nas relações quotidianas ordinarias. De facto, a experiencia da guerra, embora de uma eloquencia suprema, era desnecessaria para reconhecer a miseria moral a que haviamos baixado; no comercio moral das sociedades ha muito se acumulavam os sinais de depressão. Visitassemos nós um liceu ou uma universidade, preguntassemos pelas suas aspirações aos rapazes que lá andassem, e este queria ser engenheiro, aquele queria ser medico, aqueloutro advogado, e ainda alguem preferiria ser comerciante, mas todos sonhavam proventos de muitos contos de reis e a isso referiam o valor da carreira. Nem um só nos responderia que a sua ambição era viver de pouco, honestamente, engrandecendo o espirito e servindo o proximo. Nenhum se dedicaria a professar naquela «classe de homens», de que Platão falou, onde disse que «é pequena, rara por sua natureza e o produto de uma educação ideal aquela classe de homens que voltam a face firmemente para a moderação, quando sentem uma necessidade ou um desejo, que são sobrios quando teem ensejo de fazer uma larga fortuna, que preferem os lucros moderados aos grandes.» Mais uma vez podiamos dizer com o filosofo grego que «a massa do genero humano é exactamente o contrario, desmedida nas suas necessidades e insaciavel no desejo de arranjar dinheiro, quando tem ao seu alcance um proveito moderado.» Muito poucos encontrariamos nas escolas, se alguns tinhamos de achar, que estivessem inclinados a adoptar o preceito antigo que, «para sermos ricos, queria não que acrescentassemos as riquezas mas que diminuissemos as necessidades»; e muito menos tinhamos possibilidades de descobrir quem estivesse disposto a considerar o desengano do Evangelho e a preguntar «que utilidade ha para um ser humano em possuir o mundo inteiro se perdeu a alma.» (S. Mateus, c. 16, v. 26). As riquezas da terra constituiram-se em finalidade humana; não distinguindo mais o que se deve aos bens do mundo e o que devemos ás pessoas, as pessoas mudaram-se em instrumento da conquista dos bens do mundo, em vez de serem morada da beleza divina e do seu culto. A educação toda se enlevava no poder de servir a bolsa ou a vaidade, na arte eficaz de captar as cousas ou de possuir as almas.

Não, não era a moderação platonica, nem a nobreza romana, nem o desprendimento, o que iamos buscar ás escolas. As vitorias alemãs de 1870, corroborando impulsos de uma filosofia materialista florescente, lançaram o mundo, a exemplo da Alemanha, na superstição ignominiosa e aviltante da riqueza, da força e da cobiça.

Assistimos agora á demonstração tremenda da inanidade dessa ambição. Vinha, porêm, de longe a desconfiança, e até a aversão, da cegueira da brutalidade divinisada, metodica e intencionalmente aprendida e cultivada. Desde o seu inicio, ainda quando ela imperava e crescia, de tal modo agravava, não direi já a tradição humanitaria, mas sobretudo o nosso modo de ser psicologico que, revendo a historia do seu nascimento e progressos, enxameiam as lembranças da primeira hora, quando Mathew Arnold—e basta para testemunho este agouro de um alto e sereno espirito—escrevia, em 1871, que «o imperio alemão seria apenas um despotismo doirado, politicamente fraco apesar do seu poder militar, barbaro apesar das suas escolas e universidades.»

E vinha de longe a ameaça da preterição da civilização de qualidade pela civilização de quantidade. Com que clareza pressentiu a calamidade esse extraordinario espirito, que tanto engrandeceu o genio da França e que teve neste mundo o nome de J. Joubert!

Em 1809, apreciando uma Memoria sobre a Instrução Publica na Holanda, já ele afoitamente exprimia apreensões que hoje se tornaram caso julgado por uma experiencia rematada em demonstrações dolorosissimamente irrefragaveis. «Aquela boa gente» que havia escrito a Memoria, dizia então esse notabilissimo pensador francês, «pensava que o fim da educação literaria é e deve ser, não tornar o espirito mais belo, o gosto mais puro, a percepção mais justa, a lingua mais adornada, a alma mais delicada e a memoria mais feliz, mas sómente dar ao espirito «um maior numero de aptidões para toda a especie de conhecimentos.» Choravam o estado do seu país a este respeito: «Os estudos das matematicas, da fisica, da historia natural andavam ali muito desprezados. Os auditorios em que estas sciencias se ensinavam, eram pouco frequentados, mesmo quase desertos, em alguns logares. Disso coravam, e «não é isso, diziam, «o que o estado actual das luzes e da sociedade exige.» Para se porem pois de nivel com o estado actual das luzes e da sociedade, grande cavalo de batalha daqueles que, não encontrando nunca as suas razões no interior das cousas, porque têm o espirito pouco penetrante, procuram-nas sempre externamente, porque emfim têm olhos, desejariam eles que se ensinasse tudo á mocidade, mesmo á infancia, para a tornar capaz de saber tudo.»[15]

O conflicto das diversas aspirações da educação, sentiam-no aproximar-se os homens superiores de ha cem anos. O que seria esse desapego da beleza do espirito e da delicadeza da alma, trocadas pela multiplicidade de aptidões tecnicas e pela abundancia do conhecimento da exterioridade das cousas, sabemo-lo nós agora. Despejadamente no-lo disse o prussianismo cultivado com esmero e consciencia durante cincoenta anos e terminando por dar ao mundo o espectaculo de todas as desolações de uma brutalidade, no fundo da qual se distingue uma apostasia clamorosa e contente na sua soberba, a negação altiva do helenismo e do cristianismo que fundaram a civilização, foram o seu leite e são o seu sustento, a sua substancia.

Em todo o acanhamento das minhas faculdades, mas em pleno vigor da sensibilidade, eu, que não posso gabar-me de haver sido educado no latinismo, porque não é educação que se tome em conta a arrastada e desordenada negligencia com que usamos passar pelas escolas, mas que fui nascido no latinismo, o que para a constituição psicologica sobrepuja a educação, não escapei ás apreensões de M. Arnold relativamente ao germanismo tumido de sciencia e tão minguado de humanidade. Em 1888, algum demonio me seduzia quando, passando por Berlim, escrevi nas minhas notas: «Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou nas mãos de uma vontade; só ela a move. A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai taciturno e lento.» «A Alemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elefante, a inteligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma cristalisou nesta aspiração—ser forte, invencivel.» «Conseguiu ser forte. As doutrinas dos filosofos, de mãos dadas com o genio militar, alcançaram emfim dar-lhe uma rara força. Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilização, ou simplesmente uma gloria efemera, saida da coincidencia das aptidões de um povo com as necessidades do momento historico? A Revolução Francesa, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuais, simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e impotencia politicas; a Alemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao pólo oposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas instituições derivadas da Revolução, só os nossos filhos poderão saber o que é um país educado na admiração da força. Todas as profecias serão prematuras, embora vagamente pressintamos que a civilização é mais alguma cousa do que a força.»

Isto preguntei e era de preguntar ha vinte e nove anos. Hoje, porêm, toda a duvida cessou. Convencemos-nos de que a civilização tem de ser mais alguma cousa do que a força, e de que, por maior força de remexer a terra e dominar os seus elementos que ela atinja, negou a sua aspiração e atraiçoou-a, se com a força não coincidiu o desenvolvimento moral do homem e das sociedades, naquelas bases de amor, respeito, liberdade, desprendimento e generosidade que o genio greco-latino concebeu e fundou de uma vez para sempre. Guiados pelo passado e alvoroçados pelo presente, logo sabemos, sem a menor duvida ou hesitação, onde e como aquela aspiração de outrora rediviva ha-de realisar-se, por que meios hão-de criar-se e educar-se os homens que a hão-de servir e manter em corpo e acção.

Entre a educação classica e a aspiração da dignidade sobrelevando a pura aspiração da força, ha uma relação intima e imediata. Aquele mesmo Mathew Arnold que cedo nos acautelava contra a barbaria da Alemanha, prevalecendo «apesar das suas escolas e universidades», esse, distinguindo entre o estudo das letras, que «é o estudo da acção da força humana, da actividade e da liberdade humana», e o estudo da natureza, «que é o estudo das forças não-humanas, da restricção e da passividade humana», julgou que «o fim e cargo da instrucção... é habilitar o homem a conhecer-se a si e ao mundo

Imagino mesmo que só isto a que vagamente chamamos letras, e que afinal compreende toda a filosofia e toda a moral e estetica, imagino que só isto demandará cultura e é rigorosamente objecto de educação. A outra educação, a que na essencia é aprendizagem scientifica, essa, como a sciencia importa de ordinario alteração da condição material das cousas, depressa entra na categoria do facto quotidiano, e desse modo, por efeito de contacto e presença fisica, se torna de conhecimento inevitavel. As leis e progressos da fisica, da quimica e de toda a mecanica correlativa são faceis de conhecer desde que têm como resultado imediato e patente o para-raios, a maquina a vapor e o telegrafo e o telefone e os submarinos e os aeroplanos e toda a infinita mudança correlativa ou afim. São cousas que se vêem e não podem deixar de ser vistas e consideradas pelo seu volume e pressão continua. Os estados da alma é que não são assim palpaveis; a mais pequena obra de arte demanda, para ser compreendida e sentida, uma susceptibilidade fisica e mental que, a não ser em aptidões de excepção, só por educação, só por uma insinuação persistente e adequada se alcança. E daí a diversissima natureza do ensino scientifico e da educação classica, senão o facto capital que faz que a educação seja propriamente aquela cultura literaria, moral e estetica que constitue a aspiração classica. O resto, com o rotulo espaventoso de sciencia, será porventura questão de conhecimento e ensino a acrescentar á educação, que é uma só, onde as exigencias profissionais o exigirem.