Ora nós por demais estudamos a natureza e os modos e termos de a sujeitar e aproveitar em beneficio da força, e simultaneamente, e por demais tambem, desaprendemos as letras e os modos e termos de as converter em instrumento do conhecimento e disciplina da nossa alma. Entre agonias o verificamos. O desengano é profundo. E, ao senti-lo e na ansia de rehaver o perdido, de pronto a logica nas sugere os meios de resgate e nos manda voltar aquela antiga e segura estrada pela qual a Renascença caminhou, confundindo com boas razões em um só estudo o Humanismo, a cultura do homem, e a antiguidade classica, na qual essa cultura atingira uma beleza sem precedentes.
Por certo, «não podemos reviver aquele mundo grêgo em que os poetas eram soldados, os politicos generais e cada homem um membro do parlamento. Nem o deveremos desejar. Mas podemos experimentar a apreensão de uma parte do seu espirito. Essa existencia, fossem quais fossem as suas faltas, não tinha a especialisação dissolvente do mundo moderno. Ali ninguem era absorvido pelo seu comercio e pelo seu ganha-pão; um homem conservava-se em primeiro logar um ser humano e exercia as faculdades e experimentava os prazeres proprios da natureza humana. O artifice não se tornava uma maquina, nem o lavrador um vilão. O soldado, o mercador, o homem de letras não resvalavam no profissionalismo estreito. O historiador derivava das horas passadas nas assembleias e no campo o seu conhecimento da politica e da guerra. O poeta e o filosofo haviam estado em contacto com aquela natureza humana sobre a qual moralisavam e escreviam.»[16] Evidentemente, uma nova constituição economica das sociedades e o seu proprio desenvolvimento mental determinaram adaptações e sujeições que nos forçam a ser diferentes do que fomos no mundo grego. Mas dentro dessa nova constituição subsiste qualquer cousa essencial que só a Grecia e Roma souberam penetrar, definir e fundar; subsiste aquela aspiração de perfazermos um tipo humano que atravez de todos os cataclismos humanos e cosmicos se mostrou eterno, intangivel, não susceptivel de melhoria ou correcção. Percorreu a Grecia toda a extensão do pensamento humano que até hoje nos tem sido acessivel, enquanto Roma experimentou—e essa foi a sua inexcedivel fortaleza—toda a extensão da disciplina moral até hoje concebivel e realisada; e essas duas civilizações, conjugadas e ungidas pelo idealismo judaico, fundiram-se e completaram toda a forma superior da actividade humana em espirito e acção, deram o homem na sua integridade, e assim se tornaram a aspiração daquilo que chamamos civilização, ou melhor, a medida da civilização. O que se seguiu é apenas o processo do seu desenvolvimento, ora tumultuoso, ora coerente, regrado e continuo, ora crescendo, ora quebrando-se em depressões passageiras, mas jamais se desligando do seu impulso inicial e razão de ser, isto é, conservando em toda a contingencia, propicia ou adversa, a imutabilidade do seu fim e vontade. Nem mesmo cessa quando nos aterra um conflicto como esse que pôs o mundo todo em guerra. Pelo contrario, se temos serenidade de animo bastante para em meio da angustia apreciarmos os erros que a suscitaram, acharemos, como Eucken achou julgando o seu país e não obstante o fervor com que o ama, que todo o mal proveio de uma exagerada adoração da força fisica e de uma inadmissivel preponderancia das cobiças de uma animalidade insaciavel, ofendendo aquela integridade do homem na sua ponderação fisico-moral de que a Grecia e Roma nos legaram os exemplos sublimados.
Por esta lição crudelissima voltaremos á educação classica, por ela seremos levados mais uma vez áquelas fontes de pureza de espirito de cujas aguas uma obcecada dissipação nos tornou tão indigentes como sequiosos. Seja qual fôr a sorte das armas e o ajuste maquiavelico das chancelarias, ao fim encontraremos que a vitoria foi unicamente da civilização, dessa força constante que nos anima e é superior a todas as raças e a todas as nações, quer lhes julgue a prosperidade transitoria, quer as alente entre a decadencia a mais profunda. Porque os estados, seja qual fôr a sua capacidade politica, poderão disciplinar os povos, arregimenta-los para qualquer empreza de construcção ou demolição, mas não criam a civilização, que é uma aspiração psicologica etnica, prevalecendo sobre toda a contingencia e ressurgindo de todo o abatimento. Os povos servem a civilização conforme as suas aptidões, não a inventam; e serão nobres ou vís, vencedores ou vencidos, conforme a serviram bem ou mal, fiel ou deslealmente.
Baptizar-nos nas fontes da vida que a antiguidade classica descobriu e onde miraculosamente se fortaleceu e engrandeceu—eis o verdadeiro inicio da civilização. E essa iniciação tornou-se tanto mais urgente quanto é certo que, chegados a um momento de vitorias esplendidas da democracia, o futuro das sociedades mais do que nunca deixou de depender da vontade e do caracter dos que governam, mais do que nunca se acha confiado á liberdade dos homens, e, por conseguinte, mais do que nunca tambem fica absolutamente dependente da capacidade moral desses mesmos homens. Esse futuro será ou uma orgia mansa, quando fôr regrado, em que o zelo da boa distribuição e nivelamento das meras comodidades, tornando-se absorvente, só por essa absorpção avilta a nossa alma e a expõe ás degradações proprias da animalidade estreme, para as quais o alcoolismo é o sumo pontifice e o mais activo carrasco; ou um culto da beleza e da dignidade humana na sua integridade e gloria, para o qual a unica habitação conveniente são o templo em que Platão orou, e os logares em que o estoicismo se ouviu, e aqueles outros, altissimos, que a graça cristã ilumina. Fóra disto, o futuro das sociedades, por mais abundante e generoso que ele seja das diversas fortunas materiais que as constituições democraticas possam outorgar-lhes, não passará na essencia de uma brutalidade, mais ou menos feliz e duradoura, mas a breve trecho condenada a afundar-se na decrepitude, apodrecimento, vergonha e ruina que são o termo inevitavel de todas as brutalidades.
Não são outras em materia de educação as conclusões da guerra. Nem a Alemanha escapa á sua evidencia e acção, embora por um instante se tivesse arvorado em apostolo da força. Não só os sinais de renovação são ali tão claros como em qualquer outra parte do mundo, mas o seu passado é garantia, aliás magnifica, da robustez do seu idealismo. «Um vento de loucura fez perder a cabeça a um povo forte, e julgou-se deus... não imaginando, posto que muito sabio seja, que esta infatuação da sua pessoa é precisamente o sinal de uma moralidade inferior, de uma mentalidade de primitivos.» (A. Loisy). A Alemanha, que foi um lar sagrado da espiritualidade no seculo XVIII e ainda em grande parte do seculo XIX, tornou-se por uma fatalidade armazem de meras ideias, invenções e munições; os seus valores de alma, os que se davam e recebiam por amor, foram trocados por valores mundanos comerciaveis, pelos que se transmudam por dinheiro, ou se negoceiam por astucia e odio, ou se arrebatam por conquista. Mas cousa alguma induz a crêr no caracter incuravel da doença, nenhum sintoma póde em boa fé apontar-se que demonstre a corrupção insanavel daquela excelente materia prima, da qual foi feita, em tempos não remotos, a gloria espiritual da sua gente, e da qual tambem vieram á humanidade bens preciosos e inolvidaveis.
Para as gerações que nos sucederem, nem sequer poderá ser surpreza uma reconciliação da Alemanha com uma parte daqueles que impetuosamente ela tem combatido, e uma reconciliação tão completa que lhe dê ingresso na união latina. As afinidades espirituais e historicas da Alemanha são muito mais proximas do mundo latino do que de qualquer outra especie de mentalidade, particularmente daquela que domina nas civilizações orientais e nas que com elas têm parentesco; a sua paixão presente da força, onde conciliação possa ter e não seja puramente uma rebeldia cega contra toda a insinuação de idealismo, mais de pronto encontrará termos de identidade na simpatia humanitaria activa, propria do latinismo ocidental, do que no quietismo mistico e no desprendimento passivo que o Oriente infundiu e alimenta no slavo. De facto, mais de vinte e cinco seculos de historia demonstraram que não ha senão duas civilizações—a que cristalisou na sobriedade atica, na austeridade moral romana e na graça cristã, fundidas e disciplinadas, e a que vagueia nos arrebatamentos do Oriente, tão de pronto erguidos em extasis de desprendimento como inflamados na opulencia insondavel da sensualidade. É mesmo esta oposição de temperamentos e a diuturnidade dos conflitos que ela causa na ansia mutua de absorpção, na paixão violenta de transmudar o antagonismo em uma unidade politica e mental estavel, que de continuo esperamos e nunca chega, é esta atracção reciproca do Ocidente europeu e do Oriente, protelando-se em guerras infinitas e conquistas efemeras sem jámais lograrem unir e fundir suas aspirações originarias, é esta incompatibilidade até agora irredutivel, quer seja por amor, quer seja por despotismo, tudo o que tem experimentado e por muitos modos, é este confronto, de ordinario penoso e raro contente, que, mais do que as vicissitudes do desenvolvimento interno proprio dessas duas civilizações, constitue o drama supremo da historia da humanidade e suas epopêas. Até mesmo perante esse dualismo tragico, o que nestes ultimos quatro anos se tem passado no mundo e que nos seus males nos parece tamanho, não passará talvez de um acidente do desenvolvimento interno da civilização ocidental, porventura uma simples desproporção entre a civilização de quantidade, por demais avolumada, e a civilização de qualidade, a necessidade de reduzir essa desproporção a termos de equilibrio consentaneo com os nossos fins, tradições e vontade.
Não havendo idealismo de consequencias praticas fóra destas duas almas e não se concebendo a vida fóra de qualquer idealismo imanente, a Alemanha terá por fatalidade logica de se consubstanciar com uma dessas duas almas, e adivinha-se sem maior esforço para onde se inclinará, tanto mais que se sabe donde veio, onde foi buscar a trama da sua civilização.
A experiencia da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores, que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e engrandece a espiritualidade,—isto constitue a civilização, se o consideramos na historia dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande, da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalem, no Calvario.
Perante esta lei de sucessão de valores, verificada na historia e de continuo renovada em nossa consciencia, aquilo que se passou no mundo nestes ultimos cincoenta anos, e de que a Alemanha foi o mais perfeito exemplo e o mais retumbante porta-voz, esta paixão de materialidades e a crença em suas virtudes, que para suprema eficacia deu a escravidão do homem perante o estado, a abdicação na abstracção perigosa e despotica que se chama o governo; essa ambição de força fisica, em cujos fundamentos alguem entreviu uma supersticiosa mitologia, não teria sido mais do que a expressão de um momento infantil do desenvolvimento dos povos civilizados, que o tempo ha-de corrigir pelos proprios impulsos do crescimento, tal qual está demonstrado na historia das nações latinas. Direi mesmo que quem observar com simpatia e serenidade o conflito de opiniões que a guerra inflamou, terá repetidas vezes encontrado entre os homens mais exaltados na admiração da Alemanha e dos seus feitos, até a defesa das crueldades da sua «cultura», caracteres da mais profunda pureza e da mais cativante ingenuidade. São crianças grandes, crianças excelentes, preciosa materia prima da bondade e da justiça, apenas e passageiramente dominadas pelo que melhor corresponde á pujança da sua juventude, naturalmente turbulenta, ainda avida de dominio, como é proprio da sua força, aprestando-se entretanto para aquelas eliminações que lhe hão de transformar os impetos em anseios de liberdade e de desprendimento, visto que esta é a qualidade humana por excelencia.
Demos pois ao tempo o que é do tempo, e, enquanto esperamos por dias menos agrestes, invoquemo-los pelo nosso esforço, por essa arte divina que as gerações glorificaram sob o titulo de educação classica.