Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se, proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o coração, o pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.
Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja soberania a nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas palavras e pelo respeito que lhe votou, é decisiva e, em certo modo, quasi milagrosa. A sensibilidade de José Estevão e a riqueza das suas faculdades, até uma sensualidade manifesta[[12]], deveriam determinar um extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um enfraquecimento de vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de proposito e emprehendimento. A pujança do temperamento explicaria e desculparia hesitações e tibiezas, o abandono a impressões passageiras, traições frequentes á fé jurada em espirito ou em palavras, desvios e tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia inalteravel no combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.
N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as ruinas do passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas germinava e só de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe de suspeitar as affirmações vigorosas e triumphos resplendentes com que no final do seculo XIX a renascença idealista seria coroada pelo estudo paciente da historia, pela penetração da estructura psychologica das sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela consequente creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos, deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras, e convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão, pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa resurreição de Lazaro, doente de descrença e perversão, das feridas de luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a revolução, José Estevão foi, na verdade, um precursor abençoado, alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sãas se fortalecem para superiores destinos.
[[12]] «Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do Porto, o batalhão academico, como todas as demais forças fieis, seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára comsigo um pequeno cordão de oiro, talvez uma recordação de familia; mas em Lobios desfez-se d'elle, não para occorrer a alguma das suas muitas necessidades de occasião, mas sim para satisfazer a sua gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar gemas. Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes gemas, basta dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então por 600 réis uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques Gomes, José Estevão, Apontamentos para a sua biographia. Porto; Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.
II
«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão[[13]]. «Os heroes são excepções monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de vermos os seres da nossa especie exceder as condições ordinarias da nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa sempre cara. Os heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo: que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre, ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou lh'a deixa apontada á indignação publica para que os aborreçam.»
O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina encarnação do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando, ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, «excepções da natureza», de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por «excederem as condições ordinarias da nossa existencia», affirmava, peremptoriamente e sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa sempre cara, e «os heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.» Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o vimos dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra da nação, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que instantemente nos aponta a sua sepultura, não para a aborrecermos mas para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regiões o genio o erguia e em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao deparar-lhe com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico e consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em homens d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos, passaria na terra agitada de paixões, sem que o heroismo o pervertesse, e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma sollicitação de baixeza jámais responderam.
Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias, ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, não ha senão tres soluções da crise moral, em que necessariamente tem de debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as aspirações e as tentações do mundo. Perante os conflictos eternos do bem e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas vê abertas:
--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples contemplação, passiva e paciente, por effeito da identificação com a alegria do universo, ou na acceitação da dôr, como inexoravel, e procurando então a salvação em si, descrendo da possibilidade de modificar a fatalidade e se lhe oppôr;
--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que só na dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e