--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de proceder e tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.
Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.
Nada temeu como a inacção. Foi para elle a suprema desgraça. Em 1852, fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o seu ministerio, disse n'uma expontanea confissão, e valiosa para a comprehensão do seu caracter: «Nenhum soffrimento da minha carreira politica me custou tanto como essa perseguição. Um homisio d'um anno, não estando bastante compromettido para me resignar aos martyrios d'uma emigração, não podendo exercitar livremente no paiz as faculdades mais nobres do espirito, nem cultivar as relações de parentesco e amizade, instigado pela minha innocencia legal a comparecer deante dos tribunaes, constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de mim mesmo, vendo dos incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas peregrinações cair num mar de sangue a estrella brilhante da revolução europeia, recebendo e abraçando no meu captiveiro os meus cumplices já absolvidos e restituidos á liberdade, de que por tal causa eu era o unico privado, tudo isto compozéra para mim n'aquelles tempos uma d'estas situações equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as desgraças profundas e irremediaveis»[[14]].
O heroe, exaltado na impaciencia d'acção, a tudo poderá sujeitar-se, toda a dôr e sacrificio poderá acceitar d'animo sereno, menos aquelle estado de sequestro do mundo e de intervenção nos seus feitos, que significa a annulação completa de todas as faculdades, a condemnação ao espectaculo da propria esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E José Estevão, victima docil do seu temperamento e partilhando da sorte d'aquelles a quem por sua gloria coube igual dote no livro do destino, não pôde resignar-se com o terror d'esse apartamento violento, para elle peior do que a morte, porque era a immobilidade junta á constancia da aspiração, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o como o mais angustioso tormento. Desde que, moço quasi imberbe, se armou cavalleiro na batalha da Cruz dos Marouços, até que a morte o arrebatou, anciado e ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma tenacidade épica pela justiça e pela verdade, confiado na victoria do seu reino, que os corações como o seu haviam de estabelecer na terra, por um trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou a derrota serão sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas façanhas.
O temperamento heroico não se inocula por artes pedagogicas, por contingencias do acaso ou por virtude de simples condições externas; ou uma scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma, alheia a essa vibração, poderá creal-o. Se José Estevão o possuiu e d'elle foi luminoso reflexo, é que o trouxe quando viu a luz, ou que alguma fada lhe bafejou o berço. Esse espirito era seu, propriamente seu; e foi elle que derramou da sua robusta figura d'athleta a irradiação de claridade que a engrandeceu.
Todavia, sem embargo, as condições transitorias, se não pódem gerar o heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril na inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expansão, contrariar-lhe os impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E José Estevão teve a fortuna de vir ao mundo n'uma epoca em que a educação classica e a exaltação do civismo, provocado pelo ardor das paixões politicas, se mostraram singularmente propicias a revelar-lhe e fortalecer-lhe o caracter.
Primeiro, a educação. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino para despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, tão repassado de philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim. E, como todos os portuguezes cultos do seu tempo, José Estevão teve essa educação unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de Horacio, de feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.
Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legiões romanas, suspirando pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e receber entre os applausos das multidões freneticas os louros da victoria, com aquella intensidade de desejo e commoção que os mestres nos communicavam facilmente, n'um insensivel e involuntario contagio, porque em alto grau a sentiam tambem. Durante mezes e annos não se fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrára superior, nenhuma nos merecera maior admiração, nenhuma constituia aspiração mais nobre. Mandar nos homens e governal-os para os conduzir á gloria era a suprema elevação e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educação requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas decadas do seculo XIX, embora tivesse origem em reflexões e estudos de longa data iniciados e adeantados, mas que até então eram qualquer cousa estranha e sobreposta á vida civica, sem influencia na sua base moral. A invenção de que o egoismo é uma lei tão real e merecedora de respeito como o desprendimento, e a cobardia tão natural como a coragem; a justificação de mil baixezas, outrora julgadas abominaveis e criminosas e hoje fundadas n'um arsenal de razões physiologicas e psychologicas, retintas todas de rigor scientifico e com pretensões a verdades essenciaes; este apuro de impudor e de ascenção da animalidade estupida e cruel á cathegoria d'um modo de ser normal, a negação do sentimento do dever pela acceitação plena da fatalidade, seja ella qual fôr, indistincta; o inteiro quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a reputação de enfermidade atribuida ao genio, ao heroismo, á santidade, ao simples escrupulo de bem fazer--isso é moderno. Na verdade, só agora se propagou com louvor e a contento dos sacerdotes da sciencia e dos profanos. A educação d'outros tempos, da renascença até ao meiado do seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a admiração da magestade romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moços que entravam na vida e para ella se preparavam; a concepção pagã da robustez, da força, da ordem e da justiça, a devoção civica posta acima do preceito religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio christianismo que se lhe interpozéra e a abalára, formava capitulo áparte, já atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas conciliadoras da egreja catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A santidade seria apenas para Deus, objecto d'ermitas, de conventos e d'almas piedosas; para o mundo, o heroismo era cousa mais de venerar e seguir. Scipião valeria, pelo menos, tanto como S. Paulo; o borburinho de togas e de lanças não era menos grato aos ouvidos do que o murmurio das orações e canticos dos templos, nem se cobiçava menos o capacete do guerreiro do que o resplendor seraphico; a expansão do idealismo judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.
Se do berço trouxera o temperamento heroico, José Estevão deveria sentil-o vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza propria e o caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos, confundiam-se e completavam-se na uniformidade de tendencias.
Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinação ingenita, favorecida e afagada no periodo de formação e desenvolvimento pelas lições dos experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia o clamor de luctas politicas. Desde creança o ouvia a aproximar-se, cada vez mais perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia houve paixões politicas na historia de Portugal, foi então. A sêde de liberdade que inflamou o povo romano, renascia. Convinha que se renovassem os heroes e os tribunos, que a apregoavam e saciavam. Reabria-se o forum. Viessem os consules administrar justiça;