Para tão alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer ou coroar-se de louros pela fortuna dos homens e só por ella combater. E partiu ao encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas sangrentas, das amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do destino d'aquelles que mais amava, da perseguição, da indigencia e da fome, e, peior ainda, das mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo talento e designios escurecia ou contrariava. E tudo soffreu nobremente, invencivel na inteireza e força do seu coração, que jámais succumbiu ou esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o erguer-se no pedestal d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis provações, para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a isenção perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da consciencia e imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do orgulho:
«Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu não ouvi as injurias; e as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo é do paiz: está adjudicado ao cumprimento das nossas obrigações. Mas é nosso o sangue que nos corre nas veias; e a sua primeira hypotheca é feita á nossa honra.»
Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma estrella de justiça?!... A «paixão do bem publico», que havia de reinar dentro do parlamento[[15]] enchia-lhe o peito, e d'elle expulsava todo o sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as energias do seu braço e da sua alma lhe estavam consagradas, porque «os caracteres superiores e os superiores talentos»--e a esse divino bando pertencia, «são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar por ella»[[16]]. E essa força jámais o abandonou.
Nem a gloria militar,--e é certo que muito lhe quiz, o desviaria de servir os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o seu brilho não se escurecesse em infamia. «Tinha asco á guilhotina e não tinha consideração pela espada, quando ella serve a violentar os povos, porque a guilhotina é sempre a ignominia das revoluções, e a espada muitas vezes o opprobrio dos governos»[[17]].
«Ah! Como são valiosos, como são uma preciosidade moral, uma fonte de bens ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular, os caracteres lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes provações, e superiores aos lances da fortuna! Que ha no mundo que os possa supprir? Que ha na sociedade que possa desempenhar a missão d'elles?
«Pois José Estevão foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes quilates, um cidadão d'esta valia. Toda a sua vida foi uma consequencia rigorosa da sua composição moral.
«Frequentemente attribuimos á fortuna os feitos dos varões illustres. Esta explicação dos elogios alheios é suggerida pela inveja. Por tal expediente, poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da nossa obscuridade. O malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos nossos projectos, o desfavor dos nossos concidadãos, quasi sempre provém de nós mesmos, e o infortunio contra que nos tornamos, nasce das nossas proprias culpas.
«José Estevão é uma prova irrefragavel d'esta grande verdade. Representa, por todos os factos da sua vida, o grande principio da responsabilidade moral do homem.
«Foi o homem de grande merecimento, d'altas façanhas, de inapreciaveis serviços, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidadãos. Quaes são as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas estão todas n'elle; com elle nasceram, e com elle acabaram. Abraçou pela critica intima da sua intelligencia as ideias que se lhe offereceram como mais justas á sociedade do seu tempo, e logo se dedicou todo ao serviço d'ellas, sem mais pensar em vida, affeições e interesses, quando estas ideias requeriam o seu auxilio e sacrificios. Era d'indole dulcissima, de coração affectuosissimo, bom sem limites, compassivo sem restricções, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo em conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes males da vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que José Estevão era um homem de uma condição sublime, que a sua alma era forte, que o seu espirito era elevado, e a fortuna não dá, não póde dar, estes predicados moraes, estas supremas excellencias. Se as désse, podia mais do que Deus, mais do que as raças, mais do que o sangue, e n'esse caso antes o horror d'uma absoluta incredulidade do que o culto do acaso.
«Mas José Estevão, pela rectidão do seu caracter, pela segurança do seu juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral. Foi um partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros comprometimentos politicos. Como homem publico, era independente: como chegado ao rei, fiel. Trabalhou por vezes contra os seus adversarios politicos. Foi vencido. Os aggravos d'essas luctas esqueceu-os; conversava sobre estes acontecimentos com extrema magnanimidade. Tendo de hombrear pelos seus encargos de homem publico com pessoas de variadissimas extracções e maneiras, tendo de descer da vida cerimoniatica e estudada das altas regiões da sociedade para a convivencia do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem affectação, lhano e accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque lhe batia o coração. Não emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era homem convicto e a sua convicção era o seu norte. Entendia a liberdade e queria-a. Confessava-se seu adepto e sujeitava-se aos seus preconceitos. Zelava a sua crença mais do que as honras postiças do mundo.