«Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o coração de levantar o braço contra os seus irmãos, mas não o pungiu o remorso de haver feito mal á patria e á humanidade. Pelejavam de manhã e abraçavam-se á tarde. Pelejavam como soldados e abraçavam-se como homens.
«Não lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um só assassinato juridico. Respondia por quanto fizéra. E apezar das contendas desnecessarias, das desavenças pessoaes, de perniciosas fatuidades, deixou a terra que o creou, regida por melhores leis que ella tinha quando lhe deu o sêr, e gosando de maiores beneficios do que disfructara quando lhe foi dado conhecel-a»[[18]].
São de José Estevão essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da Terceira, quando elle morreu, em 1860. Sómente substitui o nome do duque pelo do tribuno. Mas que admiravel exactidão na imagem!... Por fortuna nossa e dos vindouros, o caracter de José Estevão ficou ahi estampado a primor, e mais do que estampado, confessado com uma sinceridade plena. Se tão lucidamente o comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no intimo o sentiu fundamente; e glorificando os irmãos no ardor civico, embora pequenos e pobres de recursos a seu lado, com a ingenuidade que é tambem condição do heroismo, porque a reflexão o enfraquece e lhe é fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros que lhe coroariam a fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admiração do valor alheio, fez justiça á sua propria vida.
[[13]] Discurso sobre o apresamento da Charles et George.
[[14]] Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 115.
[[15]] Discursos, pag. 215.
[[16]] Discursos, pag. 421.
[[17]] Discursos, pag. 331.
[[18]] Vid. Sr. Marques Gomes. L. cit., pag. 146 e seg.