Ouçamol-o ainda, em momentos de sereno julgamento. As horas de calma confirmarão a verdade de que nos deram testemunho os momentos de phantasia estimulada e abrasada pela presença dos adversarios, pelas suas provocações e pela viveza do combate:
«Foram os ministros da carta que, depois da convenção d'Evora-Monte, consentiram que o punhal das facções andasse solto pela capital, vingando odios e malquerenças passadas, que os moribundos viessem arrastando-se a dar o ultimo arranco na sua presença, e não sei mesmo se com as rodas das suas berlindas pisaram algumas vezes os cadaveres dos infelizes que deixaram assassinar! Este punhal devastador passou da capital para as provincias, e das mãos dos fanaticos politicos para a dos salteadores faccinorosos. Penetrou as nossas mais pequenas povoações, infestou todas as nossas estradas, e semeiou por toda a parte os seus horrorosos estragos! Isto são factos, sr. presidente: o assassinato começou em Portugal por fanatismo politico, alentou-se por desleixo, continuou pelo exemplo, e generalisou-se por necessidade. Por necessidade, sim! sr. presidente. A lei mais imprudente, a mais atroz e provocante, a lei das indemnisações, levantou esperanças enganosas, suscitou pretensões esquecidas, sanccionou exigencias indiscretas, e distraiu dos seus mestéres o laborioso artista, o pequeno commerciante, o proprietario de poucos teres, com a espectativa de promettidas delicias, com a mira dos prejuizos resarcidos. A illusão dissipou-se, e os homens illudidos, tendo perdido o habito do trabalho, entregaram-se ás violencias para haver aquillo que a lei lhes tinha promettido, e cuja recusa reputavam depois um roubo que lhes dava direito a outro roubo. A lei das indemnisações espalhou no paiz mais de tres mil punhaes, e perdeu muito cidadão util e honesto. Recaia pois a culpa d'esses assassinios sobre quem promulgou a lei[[39]]!...»
Passagens como esta, e contam-se por muitas dezenas, leem-se e repetem-se n'uma invariavel impressão de pasmo e confusão e applauso, em que não sabemos o que mais nos captiva e turva, se a nitidez do desenho e do quadro, tão firmemente traçado como ponderadamente illuminado, se a profundeza da analyse dos sentimentos conjugados para um mesmo crime, se a exposição dos desvarios, desordens e dissolução que d'elle resultaram, se o peso da condemnação que pela simples palavra d'um só homem lhe castigou os fautores e instrumentos, deixando-os eternamente marcados de ignominia. Só «a supremacia moral, que, não nos enganemos, é o unico poder verdadeiro»[[40]], será capaz do impulso inicial para taes milagres. E, se por uma rara concessão do destino vem favorecel-a e traduzil-a a prompta justeza d'expressão, resultará n'um explendor soberanamente glorioso.
O genio latino, que encarnou no heroe de tantas batalhas pelejadas pela liberdade, para o lançar no fragor temeroso das armas e para o fazer subir aos rostros do forum, infundindo-lhe no animo o mais depurado civismo, a plena imolação ao bem da patria, resurgiu n'elle tambem para a lucidez perfeita da concepção do pensamento e para a consequente sobriedade de o enunciar, para a renovação d'essa arte que até hoje ficou como qualquer cousa extrema, culminante, da capacidade da raça e suas tradições. Filho abençoado e dilecto d'esse genio, José Estevão fielmente o serviu.
Se encontrava «um estado de miseria, de confusão e d'anarchia», logo via deante de si os punhaes dos assassinos, a debilidade dos tumultos e o desleixo da indifferença»[[41]]. Se procurava a ordem que convinha á estabilidade das nações e á prosperidade dos povos, essa ordem «teria toda a efficacia d'um principio sem ter os desvarios d'uma paixão; era um elemento governativo e não a bandeira dum partido; era um sedativo e não um cauterio para as paixões populares; confessava-se sem alarde e servia-se sem galardão»[[42]]. Não admittia que «se suspendessem as garantias só pela possibilidade de revoluções, só pela possibilidade d'ataques á ordem publica»; porque, «se se enthronisa tal principio, a liberdade fica um receio constante, o despotismo uma prevenção permanente, o arbitrio o direito commum, a lei a excepção»[[43]]. E sempre assim pensava e assim dizia, n'esta impetuosa penetração e comprehensão das situações moraes em toda a sua latitude, definindo-as immediatamente em todos os graus e aspectos, n'uma subita e clarissima enunciação, tão exacta e condensada como completa. Assim nos desvendava n'um relampago mundos extensissimos, em que as paixões politicas se agitavam, e assim verberava, só por os apontar e expor á justiça, os vicios e erros que n'ellas se involviam e as corrompiam. Assim nos tinha atonitos e subjugados, por fim escravos da sua vontade, do seu querer e dos anceios sem macula do seu coração.
Porventura, a prodigiosa destreza do genio na arte foi compensação das penas de muito desengano do apostolo e ergueu-o de muito desalento, para renovar suas cruzadas em pról da felicidade dos homens e da dignidade da patria. Este poder de definir, esta rara e superior capacidade de exprimir em formas de rematada belleza todas as emoções da alma, e particularmente as suas aspirações de rectidão e justiça, de continuo inflamadas e alvoroçadas pelo decorrer dos acontecimentos, cristallisavam em uma obra magnifica, honra e gloria de quem a edificou e da raça que a produziu, e ao mesmo tempo representando um propulsor energico da realisação dos sonhos que a inspiraram. E José Estevão, em meio das magoas e contrariedades que soffria na carreira politica, ferido de desillusões a cada passo e por ellas rendido á consciencia de successivos e interminaveis desastres, havia necessariamente de sentir, n'uma vaga aprehensão do proprio valor, que deixar os erros dos homens e as desgraças da nação estampados com aquella radiante eloquencia, chorai-os com aquelle poder de vibração communicativo, era já só por si uma alta e nobilissima victoria, era precaver os incautos e os vindouros contra iguaes desvarios, corrigir severamente os culpados e incitar os bons ao resgate do mal e á conquista de melhores dias. Era, por conseguinte, trabalhar n'uma obra, duradoura e solida, de grandes beneficios, cujo encanto e premio intimo não lhe consentiam repouso e perenemente o traziam em sua obediencia, assegurando-lhe a proficuidade do combate. Se toda a sua arte foi consequencia da sua composição moral, e é indubitavel que o foi, não parece menos certo que a sua composição moral deveria singularmente ser auxiliada e mantida em toda a pureza por effeito da arte, que lhe permittia auscultal-a, vêl-a, tocal-a em formas d'um enlevo captivante e soberano, avivando d'este modo o seu bemfazejo dominio.
Ao abrigo dos incitamentos e instancias parlamentares, fóra das distracções a que de bom ou máu grado tinha d'acudir por virtude do logar e da situação, no remanso que lhe permittia toda a pausa e reflexão, quando o orador pôde tornar-se escriptor, a divina obsessão de considerar nos homens e nas acções o seu valor e significação moral attingiu em José Estevão a ultima e mais alta perfeição.
O retrato que nos deixou do rei D. Pedro V vale a melhor esculptura dos mestres, se é que a arte de modelar e fazer reviver a substancia etherea do sentimento humano não é superior ao talento d'animar o marmore e lhe insinuar as palpitações da carne.
«Como morreu o rei? Porque morreu o rei?», escrevia José Estevão. «A paixão publica é grande e as paixões são inventivas, imaginosas, despoticas, desarrasoadas, absurdas. O sentimento pelas vidas que nos são caras cae em desconhecer o poder dos factos e arroja-se até a negar as leis da natureza.
«Não queriamos que o rei morresse. Não acreditamos que o rei tenha morrido. Louca pretensão! Vã incredulidade!