Nos combates a que, moço generoso, corria inflamado em esperanças de dias venturosos para a sua patria, encontrava-a sob o dominio espiritual da França. As nossas revoltas e aspirações eram reflexo do que se passava em França. Reflexo frouxo, alterado, produzindo frequentes distorções do modelo abstrusas até á caricatura, fazendo degenerar por vezes largos gestos divinos de gigantes em esgares de anões impotentes, mas reflexo authentico em todo o caso, constantemente derivado d'aquella mesma luz e, em maré de fortuna, valha a verdade, reproduzindo-a com um brilho igual ou superior ao do fóco d'origem, aliás deslumbrante.
Tenhamos sempre este facto em lembrança. É capital.
Reconheceu-o José Estevão, em 1840, claramente, quando, no primeiro discurso do Porto Pireu, fallou da «França que sempre aqui se nos inculca por modelo»; e lembrava que «a esse grande arsenal da legislação franceza vão de continuo os nossos estadistas buscar os exemplos e as theorias governamentaes». E, poucos dias depois, no segundo discurso do Porto Pireu, respondendo a Almeida Garrett, insistia na influencia da França sobre o pensamento e proceder dos nossos homens publicos. «Estão no Pireu», disse, «os que no seculo XVIII mandam vir de França por atacado quintaes e quintaes de discursos do abbade Maury e d'outros e que, ensopando estas insossas comidas com molho de Guizot e Rover-Collard, expõem á venda como eguaria exquisita a chanfana da soberania da razão, da supremacia legal das capacidades, julgando que a grosseira cosinha doutrinaria, que com seus pasteis tanto tem arruinado a saúde dos povos e reis, ainda póde satisfazer o delicado paladar das nações, acostumadas aos apetitosos guisados da soberania popular, da igualdade e da justiça.»
Julgou porém legitima essa influencia, embora na passagem citada precedentemente a indicasse mais para castigar a fraude, o commercio de mercadorias avariadas que a astucia nem sempre desinteressada dos contrabandistas ia buscar além dos Piryneus, do que para ostentar o fulgor do ouro de lei que de lá importavamos. Em 1858,--desoito annos mais tarde, note-se, e a distancia entre as duas datas d'affirmações identicas póde esclarecer-nos sobre a persistencia do facto a que são allusivas, em 1858, discursando no parlamento sobre o triste incidente da barca franceza Charles et George, sob o pungir d'aggravos fundos e não poupando á França a accusação dos seus erros, observava, calma e nobremente, com aquelle espirito de justiça que jámais o desamparou, sem se perturbar pela agudeza da dôr, que «a França, se não foi a primeira iniciadora da liberdade na Europa, póde dizer-se que foi quem primeiro a ensinou em escola publica na mesma Europa, porque a pôz em linguagem vulgar, porque a sujeitou á apreciação de todos os povos, porque a adaptou a costumes com os quaes se assemelham os costumes da maior parte das nações europêas.»
Eis as fontes em que bebiamos o pensamento da nossa politica, as boas e as más, as salutares e as maleficas. N'essas palavras d'apostolo e de soldado, bem medidas e ponderadas, encontraremos a revelação bastante da proveniencia das correntes em que fluctuavamos, da attracção da sua limpidez e tambem, miseria humana! da vasa que traziam suspensa e por momentos a escurecia.
III
A França do tempo de José Estevão vivia na anciedade de saldar o encargo formidavel que a sua audacia lhe impozéra,--a victoria e consolidação d'aquillo que na historia se designou pelo nome de principios da Revolução Franceza. Procurava, n'uma inquietação interminavel, cumprir as obrigações que as circumstancias politicas e a propaganda e promessa fascinante dos seus genios havia creado,--trazer aos povos de todo o mundo a redempção dos males e angustias passadas, provenientes do despotismo dos homens e das classes governantes, e dar-lhes em troca, por uma nova constituição social adequada, a felicidade perpetua. O seculo XVIII legára-lhe um amontoado informe de destroços e aspirações, que ora se mostrava tenebroso ora resplandecia, uma confusão indistrinçavel de cousas caducas, mortas e putridas, e de sementes a despontarem e a germinarem, tumidas de vigor e irradiando belleza; alternavam, n'uma extensão infinita, as ruinas irreparaveis e os fructos tentadores de fecundissimas seáras. E era d'isto que o engenho e o esforço dos homens havia de tirar uma sociedade renascida em riqueza e justiça, em plenitude dos bens do corpo e da alma, em toda a sorte de formosura; d'esse tumulto haviam de surgir a paz, a alegria e toda a ventura, reinos de bemaventurança como o mundo jámais conhecêra. A miseria, a oppressão, quanto nos faz a vida sombria e triste, iam varrer-se da face da terra para os limbos infernaes da historia. Affirmavam-n'o apostolos exaltados que pela crença davam o sangue e o ultimo alento, sacrificando-os gloriosamente no patibulo e nos campos da batalha.
«Se quizérmos dar uma ideia do grande movimento que foi a revolução franceza, diremos» nas palavras de quem a estudou e conhece profundamente[[1]], «que foi a destruição de tudo o que era meramente tradicional e o estabelecimento da existencia humana n'uma base de pura razão, por meio d'um rompimento directo com tudo o que era historico.» O despotismo dos reis e da nobreza feudal, prolongando na realidade a servidão da gleba, quando já o espirito do tempo e as lições da experiencia a haviam condemnado como uma desgraça e monstruosa; privilegios e desigualdades calamitosas que redundavam em fome de milhares de boccas e na corrupção sordida d'alguns poucos privilegiados; um clero e uma egreja que pelo exemplo negavam a toda a hora a doutrina christã e a substituiam por formulas magicas, cujo monopolio lhes pertencia e cuja observancia dava a graça e a salvação eternas; a degradação da religião, por este modo convertida n'um culto de signaes e em devoções estupidas, apagando-lhe n'um ritualismo inane toda a elevação em espirito e toda a limpidez de consciencia, e isto ao mesmo tempo que os sacerdotes de Jesus davam o triste espectaculo da sensualidade e do luxo perante multidões de trabalhadores a morrer d'indigencia; uma demencia de vaidades, gozos e interesses sobrepondo-se á miseria geral dos povos; e, por outro lado, o anathema dos pensadores e philosophos, desvendando a lepra das sociedades e inflamando-as em visões de cura, de saúde e de força, posto que este ultimo elemento não fosse na opinião de bons espiritos o principal e influissem mais no assombroso movimento de revolta os factos e as cousas do que o estudo, a reflexão e a phantasia dos prophetas d'uma era nova[[2]]:--todo esse descredito do passado e do existente fermentou e explodiu n'uma onda de destruição e de sangue. A arvore carcomida, que exteriormente parecia robusta e magestosa mas no intimo estava apodrecida e desfeita, ruiu n'um momento com um estampido pavoroso. Ouviu-o com espanto a Europa inteira, e embriagou-se nos fumos que os destroços exalavam. Abalaram-se os fundamentos de toda a ordem constituida. Aquella vertigem, embora primeiro se revelasse em França com uma intensidade sem precedentes, era commum, em differentes gráus, a toda a Europa central e do occidente, exceptuando a Inglaterra que muito se antecipára já no caminho das reformas pedidas em tamanha violencia; e, se em França se manifestava primeiro, era porventura porque alli haviam attingido maior extensão e mais duro imperio os males a que se pretendia pôr termo, e alli tambem haviam nascido, em mais larga escala e mais profundos, os devaneios generosos de redempção e a confiança n'uma instantanea e segura conversão da miseria em fortuna, medeante o triumpho de puros principios philosophicos. N'uma febre de reforma nunca vista, varreu-se o passado com todos os seus bens e com todos os seus males; na esperança de dias melhores caiu-se n'um delirio de mudar a ferro e a fogo as instituições e os homens, não raro pelo simples amor de mudar, de todo esquecida a razão de ser d'aquillo que se proclamava ruim e como tal se reduzia a pó.
As injustiças com a antiga ordem social, perseguida e combatida por muito funesta, coincidiam porém a cada passo com a deficiencia e desastres das tentativas e concepções modernas para satisfação das aspirações que estavam destinadas a realisar immediata e completamente.
Era certo, visivel e manifesto, que uma transformação da consciencia politica se havia operado e reclamava traducção consentanea nas leis e nos costumes. O congresso de Philadelphia, treze annos antes da revolução de 1789, em 1776, definira n'estes termos a nova crença: «Consideramos como evidentes por si as verdades seguintes--Todos os homens são iguaes; possuem direitos inalienaveis. Entre estes direitos encontram-se a vida, a liberdade, o esforço pela felicidade. Os governos foram estabelecidos entre os homens para garantir estes direitos, e o seu justo poder baseia-se no assentimento quotidiano dos governados. Todas as vezes que uma forma de governo qualquer se torna destruidora dos fins para os quaes foi estabelecida, o povo tem o direito de a mudar e abolir».