A legitimidade da revolução e o caracter sagrado dos principios em nome dos quaes se fazia, não se punham em duvida. As divergencias iriam encontrar-se nos processos d'execução, e sobretudo na forma e natureza da construcção politica que havia de substituir o antigo e decrepito edificio. Sobre esse ponto, o seculo XVIII legára á França, juntamente com indomaveis impulsos humanitarios de liberdade, igualdade e fraternidade, tres correntes politicas, tres attitudes differentes bem accentuadas na empreza herculea de firmar na terra o reinado da justiça:--a corrente que Voltaire personificou, corrente de puro exame e negação, apenas dissolvente, apontando com uma ironia mortal os erros, iniquidades, crimes e insensatez do antigo regimen, porventura não se detendo a esboçar outro systema, porque acreditava na reparação completa dos vicios predominantes por um movimento moral interno, dispensando d'abandonar as formulas constituidas, e limitava a tarefa de saneamento a infundir-lhes novo espirito e novos costumes no exercicio dos seus poderes;--a corrente que encarnou em Rousseau, constructiva, corrente d'organisação, refundindo a sociedade em outras bases, num plano logico, absoluto, radical, que não admittia desvio ou alteração e ignorava diversidade ou dissemelhança entre os instinctos humanos, todos bons, segundo o philosopho conjecturava, no estado de natureza;--e por ultimo, corrente mais frouxa, menos nitidamente traçada, mas, sem embargo, com uma existencia tão real, persistente e efficaz como as demais tendencias em acção, a corrente que Montesquieu trouxe á luz, bem inspirado no profundo conhecimento da vida pratica em que os encargos profissionaes o fizeram penetrar, e que magistralmente esboçou no Espirito das Leis, condemnação do dogmatismo e prodromos adeantados do criterio evolucionista, estabelecendo, d'uma vez para sempre, com um rigor que as theorias scientificas modernas confirmaram e ampliaram, que as leis teem de sêr fundadas em multiplas e complexas condições de raça, de temperamento e de tradições, e nunca, para serem estaveis e proficuas, poderão derivar de principios absolutos, inalteraveis, fixos.
Prevaleceram no primeiro impeto da revolução franceza a negação voltairiana e o dogmatismo philosopliico, destituido d'elasticidade, d'uma rigidez deshumana, apertando, em excessos quasi prohibitivos, o espaço necessario á expansão da variabilidade das paixões e instinctos, que aliás lhe competia regular e libertar, como annunciára, captando por isso as sympathias dos ingenuos. Mas não se manteve nem podia manter-se. A seccura do racionalismo, além d'ignorar as necessidades psychologicas da imaginação e da phantasia, temperando de devaneio poetico as durezas da existencia, esqueceu tomar em conta as particularidades da raça e da historia de cada povo, com as suas concepções religiosas e as inclinações moraes correlativas, sentimentos a que correspondem necessidades de realisação pratica, que levaram seculos a crear e não se destroem n'um dia por um simples gesto de quem manda, ou seja imperador ou tribuno, victima da fé em uma uniformidade absurda, tomou por crime sujeito a sancção penal o que não estivesse d'accordo com a deducção de principios abstractos, e assim preparou a reacção e a propria desgraça, congregando contra si todos os elementos violentamente excluidos do seu plano ou por qualquer causa contrariados. E quem assistisse aos acontecimentos e os visse com o olhar dos genios, poderia desde logo, como de facto succedeu, julgar o futuro pelo presente e pelo passado e fazer a historia antes que os tempos lhe ratificassem a assombrosa prophecia. «O seculo XVIII», escreveu então M.me de Stael, «proclamára os principios d'um modo excessivamente incondicional: é possivel que o seculo XIX explique os factos n'um espirito de excessiva resignação com elles».
Veio a reacção, primeiro com o imperialismo napoleonico, depois com a restauração pura e simples da monarchia e seus velhos systemas. Não lhe faltavam elementos, muitos se haviam conservado fieis á antiga ordem politica, por egoismo, pelas saudades dos seus ocios e regalos, pelas honrarias e riquezas abolidas e offendidas, por simples passividade ou indifferença, pelo respeito do passado e seducção de sua magestade e esplendor, dos seus aspectos de opulencia e solidez, pelo poder do habito que fazia acceitar como boas as sujeições mais odiosas e como naturaes e legitimas soberanias absurdas, superioridades e distincções de sangue e de classe que a mais leve reflexão devia dissipar instantaneamente. Demais, a gloria de batalhas vencidas por toda a Europa encaminhava o espirito popular para o pólo opposto a aspirações de liberdade, igualdade e fraternidade, cujo maior inimigo é e será sempre o militarismo, com a disciplina degenerando em annulação total da liberdade, e com a força preterindo constantemente o direito e negando sem cessar a fraternidade. Rolando as cousas politicas em esse novo pendor, inventaram-se concordatas com a egreja catholica, cuja auctoridade não houvéra meio d'esmagar. De concessão em concessão, talvez, ou pelo menos em parte, pelo cansaço das proprias guerras e luctas, e muito pelo desengano da felicidade que tardava e não se approximava só pelo effeito de derrubar o passado, succedeu á furia da justiça a ancia d'ordem, vaga negação da liberdade, declarada exigencia do restabelecimento da regra e da imposição, restaurando, com as penas correlativas, obrigações e deveres sociaes d'outros tempos que a revolução desprezára e contestára. A anarchia, propria de toda a epoca demolidora, gerou o despotismo que é soccorro obrigado de situações semelhantes; e d'esse incidente partiu a orientação para novo rumo. Aos principios de liberdade, tomando-a pela dissolução de multiplos vinculos sociaes e invocada no interesse individual, veio oppôr-se o principio da auctoridade, coagindo a sujeições em nome do interesse da communidade. Até aquelle largo e generoso humanismo que, derrubando fronteiras, fazia do mundo uma familia e de todos os homens irmãos, começou a perder terreno, vencido pela ideia de patria; a reacção do principio do seculo XIX, chamando em seu auxilio as tradições nacionaes, logo por esse facto traçava limites, marcava divergencias entre os povos e combatia o enlevo humanista, de sua natureza universal, propenso a apagar radicalmente todo o vestigio de divisões de territorio, raça, costumes e instituições.
Na logica instinctiva do seu impulso, a reacção em França, avançando e substituindo pelo absolutismo tradicionalista o absolutismo revolucionario, erro por erro, foi terminar na restauração pura e simples do passado, no rei, na côrte, no predominio da hierarchia ecclesiastica, nos privilegios, supremacias e dependencias, esquecida a breve trecho do que em tudo isso havia d'oppresivo e injusto, a tal ponto insupportavel que determinára as violencias destruidoras da revolução. Afferrando-se aos preconceitos e bastas vezes á obsessão de retaliações e vinganças e á simples instigação de conveniencias temporaes, convertendo a restauração da ordem politica e religiosa historica na restituição de proventos, commodidades e gozos com a privação dos quaes nunca tinham podido conformar-se as aristocracias reinantes, cegas e indifferentes á miseria profunda dos povos que o feudalismo omnimodo e sem caridade importava, a reacção tradicionalista cantou victoria alegremente, de todo alheia ao facto de que a revolução, boa ou má segundo diverso criterio, era um acto consumado e consagrado, a registar tambem entre as tradições, tendo d'ora avante logar marcado entre os factores das sociedades, senão pelo que d'ella ficasse inabalavel, ao menos pelos vestigios das construcções que architectára, na verdade por um e por outro modo. Atravez de todos os impulsos e tentativas conservadoras, muitas sem duvida legitimas, uma dissolução formidavel da antiga ordem social se tinha operado, condemnada não só pelas desgraças a que conduzira, pela fome e miserias que gerára, mas ainda por falta de base sufficiente, abalados como se mostravam os seus fundamentos cosmogonicos e theologicos, pela analyse, pela observação scientifica, e por um lucido despertar da consciencia da dignidade humana. Não via a reacção que as sociedades são mudaveis de condição, e hão-de mover-se e transformar-se emquanto viverem, d'aspiração em aspiração; tinha por definitivo o que era transitorio, e até o que se encontrava morto para sempre; em accessos d'egoismo desvairado reputava crime, para o qual pedia e applicava rigores extremos, todo o esforço pelo progresso na fundação d'um systema de relações sociaes mais de perto inspirado na justiça do que aquelle que até alli se havia mantido e se degradára em aviltada corrupção. Banira-se-lhe do espirito a noção do sentimento que equiparava entre si todos os homens e jámais poderia ceder das suas instancias; nem mesmo a percepção da fraternidade christã e seus deveres lhe restava, possuida, como andava, d'uma falsa comprehensão do principio d'auctoridade que, no seu conceito e na pratica do seu governo, resultava n'um principio de sujeição, a bem ou a mal, aos poderes constituidos, legitimados e sagrados pela religião, intervindo com a graça de Deus, apposta pelos sacerdotes, para sanccionar o direito de quem mandava e o dever de obediencia dos que eram mandados.
Uma reacção d'essa natureza não podia vingar. Assim como a revolução fôra vencida por virtude do caracter abstracto, por não conceder o seu logar a motivos de sentimento, de cuja satisfação a felicidade humana não prescinde, a reacção tinha de cair por excluir do seu campo as aspirações de liberdade e reforma que áquelle tempo já ninguem podia arrancar do coração dos povos. Nem mesmo muitos dos que apoiavam a reacção ignoravam que alguma cousa da revolução tinha de perpetuar-se e dilatar-se; se apparentemente o negavam, era por calculo, por hypocrisia, por adulação e lisonja dos vencedores, para irem aproveitando os favores do poder em quanto elle durasse, promptos a tributar igual respeito a quem quer que substituisse os governantes quando os ventos mudassem. A revolução tinha sido um despotismo invertido, usando de toda a violencia dos tempos anteriores á sua explosão, mas agora em beneficio dos principios revolucionarios e, quando Deus queria, das ambições proprias dos que eram designados para a representar na lei e no mando. Depois de quarenta annos de luctas, a França não tinha alcançado ainda a famosa liberdade pela qual andava suspirando e sangrando, e meditava novos meios de a conquistar, formas de governo que lh'a assegurassem, em paz e estabilidade.
Ao tempo em que José Estevão entrava na politica, nos derradeiros annos da terceira decada do seculo XIX, a França, sonhando pôr termo aos conflictos em que desde a revolução se vinha esgotando, chegava a esse compromisso que se intitulou a monarchia constitucional. Tudo lá havia de caber, o passado e a revolução, a liberdade e a auctoridade, a religião e o estado, os padres e os seculares, os apostolos e os mercantes, o idealismo e a cobiça. Na opposição de tendencias em todas as quaes havia uma parcella de verdade e bem entendida conveniencia e interesse social, a rectidão dos homens bons e sinceros hesitava; ora se inclinava a reformas, ora se convencia das vantagens de manter a constituição historica, abonada por seculos de grandeza. Aos que menos lucidamente distinguiam as razões fundamentaes e nobres d'essa incerteza de caracteres superiores, sómente e lealmente preoccupados com a ambição d'acertar, essa attitude afigurava-se contradictoria e dando facil presa a suspeições, que nunca faltam em conjuncturas identicas. Mas, atravez de mil aspectos e vicissitudes, era certo que, pela experiencia das revoluções e contra-revoluções succedendo-se durante um largo periodo, preponderava então nos homens publicos mais reflectidos e a todos os respeitos mais capazes o pensamento de que, se a revolução tinha muito de justo, o passado tinha tambem não pouco de essencial á boa fortuna das comunidades humanas. E conjunctamente o povo, nada sensivel ao encanto de principios abstractos, cuja harmonia tanto captiva os poetas e os philosophos e tão facilmente os induz a afastar-se da realidade, expondo-os ás dôres da desillusão, o povo favorecia as inclinações dos chefes politicos. Sendo a victima mais flagellada das disputas revolucionarias, cansado de guerras interminaveis, inquietações permanentes e fomes prolongadas, queria a tranquillidade a todo o custo. O melhor governo, para elle, seria então, como hoje, aquelle que lhe deixasse os filhos para o trabalho e não lh'os pedisse para as chacinas dos exercitos, e que lhe permittisse comer em socego o pão amassado com o suor do rosto.
[[1]] G. Brandés, Main Currents in Nineteenth Century Litterature. Ed. ingleza. (W. Heinemann, 1906).
[[2]] Barante considera infundada a asserção de que os auctores do seculo XVIII eram responsaveis pela revolução que nas suas duas ultimas decadas o assignalou. Julga a litteratura d'essa epoca apenas um symptoma da doença geral. A litteratura seria a expressão do estado social. Na sua opinião, a guerra dos sete annos teria feito mais para enfraquecer a auctoridade em França do que a Encyclopedia; e o caracter profano da côrte de Luiz XIV, emquanto perseguia protestantes e jansenistas, fez maior mal á reverencia pela religião do que os sarcasmos e os ataques dos philosophos.
IV
Pelas proximidades de 1830, a França, na anciedade de descobrir formulas politicas que lhe dessem riqueza e paz, inclinára-se, consciente ou instinctivamente, ás doutrinas de Montesquieu; ia reconhecendo pela imposição dos factos que o clima, a raça, a situação geographica, e sobretudo as tradições historicas de cada nação são forças activas e invenciveis no modo de ser politico dos povos. Ás abstracções da revolução oppozera-se a ideia de patria e o sentimento nacional, differenciando e limitando, e dividindo o mappa do mundo em circumscripções diversas de caracter e d'interesses. Ai da fraternidade dos povos! Descobriram-se razões para justificar o egoismo das collectividades. Mas tambem, em meio da fortuna varia do liberalismo e da reacção, atravez de periodos longos de dictadura e absolutismo, firmára-se a confiança em moldes novos de constituição politica; acceitava-se em principio a igualdade dos homens e em larga escala se traduzia nas leis civis e politicas, assentes d'ora avante em bases juridicas repassadas de philosophia do liberalismo humanitario. O compromisso entre o passado e o futuro, entre os factos e as aspirações, ia estabelecer-se por uma partilha de dominio, o mais das vezes arbitraria, que era uma tregua e não uma solução do conflicto.