Oxalá a minha capacidade correspondesse á magnitude do problema! Bem sei que infelizmente não corresponde e que d'elle se distancia de modo incommensuravel. Por isso não é confiado n'ella que venho aqui mas pura e unicamente na certeza de que o saber e a indulgencia dos que me ouvirem supprirá a insufficiencia dos meus conhecimentos e a estreiteza do meu pensamento.
O credito agricola é, meus senhores, uma questão estudada pelos nossos publicistas. Entre os seus trabalhos, que são numerosos e de valor, avultam o que em 1888 publicou o illustre agronomo sr. João Achilles Ripamonti e as longas paginas que no seu ultimo livro, A Terra, o sr. Anselmo d'Andrade consagrou a este assumpto; ambos conquistaram logar privilegiado na litteratura agricola nacional, o primeiro pelos elementos que colligiu sobre as instituições do reino e o segundo pela profundeza e pela multiplicidade d'aspectos com que encara o problema.
Seria offender a illustração dos que me ouvem fallar-lhes dos bancos da Allemanha, da Escocia e da Italia que fazem descontos á lavoura ou por qualquer outro modo lhe prestam serviços. São do conhecimento de todos; a sua organisação está descripta innumeras vezes e as suas vantagens teem sido tão largamente apregoadas como reconhecidas.
Demais, uma outra razão me obriga a ser breve n'este ponto. É que temos uma instituição nacional que nada fica a dever em beneficios aos bancos populares estrangeiros e que, não sei bem por que capricho, é muito pouco conhecida entre nós. Refiro-me á Caixa Economica d'Aveiro.
A Caixa Economica d'Aveiro foi fundada ha cerca de quarenta annos (em 1858) pelo fallecido sr. Nicolau de Bettencourt que, servindo n'aquella cidade o logar de governador civil e tendo fundado nos Açores, d'onde era natural, uma caixa inteiramente igual, quiz assignalar a sua passagem no governo do districto com uma creação cujos beneficios já por experiencia conhecia. Para isso pediu, instou e conseguiu a cooperação de todos os principaes proprietarios e capitalistas da terra que não eram muitos.
Esses proprietarios reuniram-se e por escriptura publica formaram uma associação destinada a receber depositos em conta corrente com o juro de 5% ao anno, não podendo as respectivas entradas serem superiores a 30$000 réis nem inferiores a 100 réis e não podendo a somma total de cada depositante exceder a quantia de 400$000 réis. Para garantia d'estas operações os socios obrigavam-se por determinada importancia com que podiam ser obrigados a entrar, não vencendo todavia essas importancias juro algum. O fundo constituido pelos depositos e pelas entradas dos socios seria negociado em emprestimos sobre penhores d'ouro, prata, objectos de valor e facil venda e ainda sobre lettras garantidas por firmas acreditadas.
A organisação era e é simples: tres directores, presidente, secretario e thesoureiro, eleitos annualmente e que são ao mesmo tempo a mesa da assembléa geral, assembléa geral que póde funccionar e deliberar validamente estando presente a quarta parte dos socios. Actualmente, como os accionistas não chegam a cincoenta, a assembléa geral funcciona com treze socios.
Na Caixa Economica d'Aveiro, tudo começou por favor e emprestimo; não sei mesmo se o papel para o primeiro expediente foi um favor da repartição do governo civil e se o cofre que guardava toda a carteira commercial era o simples cuidado da pessoa que tomou isso a seu cargo. Pois essa instituição iniciada e continuada n'um regimen que em materia bancaria se póde dizer archaico, sem ter mudado de estatutos e com a sua administração patriarchal, estava em 31 de dezembro de 1898 na seguinte situação:
Tinha 206:709$000 réis em 2.012 depositos, dos quaes 1.426, ou seja 70,9% não excediam a 100$000 réis. N'um movimento de réis 947:438$900 em lettras, 2.290 em 2.700 ou 84.8% não são superiores a 100$000 réis, emquanto em 4.001 penhores, representando um movimento de 124:981$420 réis, 3.071 ou 76,7% não excedem 10$000 réis.
Se a isto accrescentarmos que a maior parte do movimento em lettras resulta de transacções com proprietarios e lavradores, escusamos dizer mais para mostrar o que é a Caixa Economica d'Aveiro, que beneficios presta, que classes ajuda e que significação lhe podemos attribuir como instituição servindo a agricultura. Não creio que estabelecimento algum estrangeiro mereça mais o nosso estudo e attenção do que esta singela instituição nacional.