Seria agora occasião de me referir aos celleiros communs, tão bellamente estudados no livro do sr. Ripamonti. Sobre elles direi apenas que, sem embargo, prestaram serviços mas a sua hora passou; os caminhos de ferro, a intensidade da vida economica que resulta da facilidade de communicações exigem hoje qualquer cousa mais larga e mais geral do que poderiam ser esses estabelecimentos minusculos, disseminados desigualmente, sem relação entre si, sujeitos unicamente a condições locaes. Não se restauram facilmente instituições que caducaram por condições de vida nova que não podiam preencher. Não ha cousa mais captivante que uma cidade medieval e todavia não nos seria possivel crear um só organismo social d'esse typo. E assim em tudo o mais: outros tempos, outras necessidades.
Do estudo, que os publicistas teem feito entre nós do credito agricola, tres conclusões parecem deduzir-se que nos hão de servir de guia para o que de futuro possamos resolver:
1.º A descentralisação dos capitaes.
É necessario que os estabelecimentos de credito comprehendam uma pequena área; só assim se poderá conhecer inteiramente a solvabilidade dos que contractarem, o seu valor pessoal e o destino que dão aos seus capitaes, a sua vida moral e o seu tino economico, e só assim, por conseguinte, o credito poderá alargar-se com confiança. D'outro modo o capital retráe-se e deve retrair-se porque não póde correr aventuras.
Os melhores estabelecimentos extrangeiros assim como a Caixa Economica d'Aveiro, todos funccionam n'uma estreitissima área; a Caixa Economica póde dizer-se que não vae além dos concelhos de Aveiro e Ilhavo e ainda um pouco d'aquelles que lhes são immediatamente visinhos.
2.º A promiscuidade de operações.
Todas as boas instituições de credito popular descontam indifferentemente ao commercio, á lavoura ou á industria, a todos aquelles que dão garantia de satisfação dos seus compromissos. Não ha situações privilegiadas; o credito é só um. Nem convém que as haja: não se comprehende como os differentes ramos da actividade economica d'uma sociedade devam ter credito differente se todos são igualmente lucrativos e igualmente uteis pois d'outro modo não devem subsistir. Póde a natureza das operações exigir differentes condições de contractos, conforme uma liquidação mais ou menos rapida, conforme o maior ou menor risco e consequente necessidade de amortisação, mas essas como muitas outras circumstancias só attingem propriamente a administração bancaria e nunca o credito, a possibilidade fundamental de desconto.
Ainda n'este ponto, instituições nacionaes e extrangeiras nos indicam a boa regra.
3.º A interferencia do Estado.
É uma conclusão muito particularmente para o nosso paiz esta intervenção do Estado que os trabalhos dos publicistas nos indicam como a iniciadora do credito agricola e de todo o credito popular; é uma condição nacional, mas parece-me ser uma condição. É singular que até a Caixa Economica d'Aveiro, tão prospera e tão bellamente mantida e administrada, por iniciativa particular, fosse creada por esforço e deligencia d'um homem que juntava á sympathia pessoal que merecia a qualidade de alto funccionario administrativo, que não foi nem podia ser indifferente ao bom resultado da sua tentativa. Os celleiros communs foram na sua quasi totalidade de creação e administração ou das corporações municipaes ou dos juizes de direito ou de qualquer outra entidade relacionada com os poderes do Estado. Administração livre e independente é caso raro, rarissimo. E este facto deve, a meu vêr, tirar-nos quaesquer illusões e esperanças que possamos ter sobre a instituição do credito agricola por iniciativa individual. Não é essa a tradição nacional nem, digamol-o de passagem, se vêem presentemente meios e tendencias de entrar em novos costumes.