Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto, pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da moralidade das raças--o alcoolismo.
Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões sociais.»
O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das vezes acabar.
Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à consciência.
Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro da nossa raça.
Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):
1.041:000 litros de vinho comum.
7:500 litros de vinhos licorosos.
11:000 litros de agua-ardente.
Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade, poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a raça.