Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer conquistar o seu lugar no mundo.
A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê enleiado e combatido por tradições terríveis.
Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.
Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara a consciência da maldição que nos atormenta.
Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul, deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o julgue.»
São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram diploma de inferioridade.
Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus companheiros e seus servos e amigos.
Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz expressão de Carlyle.
Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos orgulhamos.