Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo exemplo são garantia da sua excelência.
Quid inde? Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e por que razões ha-de persistir em nossos dias?
Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu carácter e a sua influência na moralidade das raças.
Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida universal.
Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os encaminhavam e prendiam.
Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.
Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.
Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina, nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão de sistema ou de lógica, é um acto de religião.
Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse «poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se revoltam.
Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor, porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as mais bárbaras crueldades.