«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio: nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa conquista vastas províncias, subjuga raças frugivoras, funda por guerras sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para gozar em paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do que nunca; aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, exgota-se em armamentos estéreis e vive num estado de paz armada periodicamente interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem de prêsa especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo do que o primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção sobre a massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem de prêsa domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela degenerado: «Do mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz Wagner, do mesmo modo vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do alimento contra a natureza que êle usa, é vítima das doenças que só nêle aparecem, e nunca alcança nem o termo normal dos seus dias nem uma morte doce: sob o aguilhão de sofrimentos e de torturas que só êle conhece e que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se através duma vida de agitações vãs, para um fim sempre terrível».

«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração. Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte, as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje um pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime que teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos apóstolos dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da doutrina da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da redempção do mundo moderno.»

Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável escudo.

Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento. É o de E. Réclus.

O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu conselho não póde prescindir.

«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos laboratórios. Nasceu-lhe no coração.

«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que comem carne contra os animais que êles comem. Não ha necessidade de ir a nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma saladera de La Plata, para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas impressões gastam-se com o tempo; cedem perante a perniciosa influência da nossa educação de todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo para a mediocridade, e o despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original. Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutôres, para não falar desta poderosa individualidade que chamamos toda a gente, todos trabalham juntos para endurecerem o carácter da criança com respeito a êste «alimento de quatro pés» que, todavia, ama como nós amamos, sente como nós sentimos, e sob a nossa influência progride ou retrocede como nós... Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conjunção com o massacre dos gados e os banquetes carnívoros. A dieta dos indivíduos corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nêste ponto, quem rememorar as suas lembranças daquêles que tem conhecido, encontrará que não póde haver dúvida possível quanto ao contraste que existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--ávidos bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de disposição e regularidade de vida. É certo que estas qualidades não são muito apreciadas daquelas pessoas superiores que, não sendo de fórma alguma melhores que os outros mortais, são sempre mais arrogantes e imaginam que acrescentam a sua importância depreciando os humildes e exaltando os fortes. Para elas, doçura significa fraqueza: os doentes são um tropêço, e seria caridade varrêl-os do caminho. Se não forem mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas é justamente esta gente delicada que resiste á doença melhor do que os robustos...

«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos chamados animais inferiores e a ampliação até êsses nossos irmãos do sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O cavalo e a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a cotovia, são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. Queremos conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»

E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos, prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual o vegetarismo é o primeiro passo, ou como êsse outro proféta de alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça» aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa. O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem por titulo A Etica da Dieta e ao qual fui beber a maior parte de aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se fundam.

II