«Mas se os nossos sports são destruidores, muito mais o é a nossa gula e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos, como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição. Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade chacinou.»
Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.
Voltaire, no Dicionário filosófico, discorrendo sôbre a palavra carne, escreveu:
«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino, Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O escrito de Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, diz-se, se fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho. Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento, memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo toda a virtude.»
Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B] É de suprema importância que não se lhes desnature o gôsto primitivo e não se tornem carnívoras, senão por motivos de saúde, pelo menos por causa do carácter. Porque, seja qual fôr a explicação da experiência, é certo que os grandes comedores de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que os outros homens. Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. É bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo contrário, são os mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis, e não é a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu alimento. Vão para a guerra como para a caça e tratam os homens como tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como testemunhas legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os ciclopes, que eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos como um povo tão doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo esquecia tudo e a sua pátria para viver com êle... Já se viu alguém aborrecer o pão e a água? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois uma regra de vida. Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível o seu gôsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e vulgar; façamos que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas naturais e que não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes observei a gente que dá importância a viver bem, que pensa, mal acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais exactidão do que Políbio usa na descripção duma batalha. Pensei que todos esses chamados homens eram apenas crianças de quarenta anos, sem vigor e sem consistência. A gula é o vício das almas que não teem fundo. A alma do glutão está no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua estúpida incapacidade, só à mesa está à vontade. A sua capacidade de julgar limita-se às suas iguarias.»
Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade. O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é minimo relativamente ao que importa conquistar.
Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.
Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia na regeneração física e moral das sociedades humanas.
A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta dados primaciais do problema:
«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico, verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias. Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser considerada como a razão fisiológica, como o princípio inicial da corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.