A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que «está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que vivem ordináriamente de substâncias vegetais».
Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será apontada e castigada como infração de princípios supremos.
Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão entre nobres e gente abastada:
«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano, enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca a compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens sejam tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu intimo e a sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós, exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que com prazer mataria meia dúzia de aves.
«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se consuma.
«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer que, tendo sido feitas as coisas para utilidade do homem, não póde haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz lhe acusa a falsidade da asserção.
«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem relutância uma galinha.
«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses escrúpulos ás suas próprias aves, e recusam-se a comer daquelas que sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer coisa como a consciência da culpa; parece que se esforçam por se salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»
Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e fisiológica.
«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece fácil defender meramente por sport a destruição de qualquer coisa que tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza. Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores, contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»