Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas, dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os opressores».

E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, destroem e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem de modo algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim selvagens por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e luxuriosos prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticínios da caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza bárbara e brutal que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e compaixão. Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais inferiores um exercicio de filantropia e graça».

Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a antiguidade nos legou.

Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam, guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses, esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S. Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.

No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos primeiros tempos do império romano.

Vem o Compêndio da Vida Sóbria do celebre Cornaro que, fraco e arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a Utopia de Tomás Moore, a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais «pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.

Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades do carnivorismo.

«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»

Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu. Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as principais vantagens dos homens d'aquêle tempo o comércio que êles tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu, «sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»

Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco, enquanto medita a Vida e Moral de Epicuro que sabiamente traçou, encontrando, como este, «o bem supremo, summum bonum» no seu pequeno jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana páginas definitivas.