[II]

E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.

Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.{38}

Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos{39} das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.

Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.

[III]

A terra que ele amou, amou-o também!...

Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando alegremente pela enxada;{40} murchou endurecido o prado à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila dos céus.

Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador humilde do seu viço,—aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente, sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.{41}

[CULTO DE QUIMERAS]