Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou à{33} paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso que deixou de elaborar fartas sementes.
De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.
Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.
Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.{34}{35}
[TERRA LACRIMOSA]
[I]
Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão.
Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria poderoso{36} e invencível; e entretanto o seu corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições.
Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas.
Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade{37} se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.