Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado, na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:
—Senhor! Senhor! Senhor!...{30}{31}
[O SONO DO TRIGAL]
[I]
Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.
As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das vergônteas{32} frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.
E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu segredo!
Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;—aquele que ao mais leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente.
Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.