Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,—porque me roubas aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque, Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...{25}

Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito, salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.{26}{27}

[BÊNÇÃO DO POENTE]

[I]

Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em sombras.{28}

Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,—todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível.

Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro cessar das energias.

Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio{29} de esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.

[II]

Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração, quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates. Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e mortais de lábios débeis que mortais nasceram.