[II]

Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que em saudade amortalhe os seus anseios!...

Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!{23}

[HUMILHAÇÃO]

[I]

Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.

Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.

De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina{24} ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a todos gera e por igual corrompe.

Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.

[II]