«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!
E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria{19} e a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.
[V]
Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»{20}{21}
[MAIS FORTE QUE O MAR]
[I]
Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da cerração ambiente.
Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em alegria.
Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara{22} o peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!
Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.