[III]

Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo.

Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.

Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões humanas, onde quer que o destino{17} cegamente castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em atormentá-lo—a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.

Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu nos seus mandados!

[IV]

Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.

Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada para a terra e para os{18} céus em um só Deus. Cantava os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.

Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela espargia.

E disse-lhe a visão: