[II]

E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio beija-lo cândida{15} e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.

E disse:

—«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a eternidade.

«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.

«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de quanto foge e passa na incerteza,{16} redimido em meu peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»

Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.

Por sua vez beijou a mensageira.

—«Bendita sejas!» disse.

E nesse instante passou na treva estranho clarão.