Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites, essa sombra de gélidas{11} vigílias que me murmura o desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo cruelmente:

Doçura! louco, só na morte a encontras!{12}{13}

[A DOR E A VIDA]

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descançou afinal meu coração.

ANTERO DE QUENTAL.

[I]

Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol.

Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.

Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças{14} profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!...

Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno.