Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.

Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,—que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!{45}

[ANSEIO DA MANHÃ]

[I]

Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo afugentado;—crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da claridade.

Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia.

Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no trabalho, reconhecendo{46} toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:—em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.

E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima.{47}

Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e—suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.

Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.