[II]

Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a eternos{48} reinos de bem-aventurança! Que a ténue irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas cristalinas!{49}

[A ASA DO REMORSO]

[I]

Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.

E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão{50} e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.

Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento.

Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção.

[II]

Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta{51} ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.