Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.
Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,{52} teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!{53}
[SERVAS DA LUZ]
[I]
Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber seus fogos.{54}
[II]
Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando donde a luz se ergue—aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência do amor da luz?!...
Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça, pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da escuridão!{55}