Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que vertessem sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia e a treva, o Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus fogos incendiando-lhes a fecundidade.

Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O viço converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. Murcharam os prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu frescor, levanta agora o vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra nua. Rolam no chão as palhas trituradas como restos de vidas insepultas.

São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na vitória, na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade santa e dolorosa.{56}

Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, para lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de doçura, para madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos salve dos golpes traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores aquela mesma terra que por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao despertar-lhe sua paixão constante de abundância, o seu fascinante arfar de formosura e a pródiga caridade do seu seio.

[II]

Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero invólucro deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus férvidos alentos crie uma gota desse imenso amor que é o teu eterno cálice de vida!—Tal qual o Estio abrasa e queima a terra para transmudar em pão a rocha árida e fria, incendeia de amor meu coração para em tua fé remir os infiéis!{57}

[LOUCOS DE HUMILDADE]

[I]

Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.

Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas dispersas de apagados lares.