Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu destino. E incessantemente a repetiam—assim como no coração volta a saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando{58} dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.
Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência das correntes.
Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima, chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria imobilidade e à própria sorte?!...
Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o portador bem-vindo.{59}
Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram, fúnebremente, a terra desolada.
[II]
Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços{60} do arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus, quase sem luz.
Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos trazendo em sua voz:
—«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»