[I]
Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, ouvi o cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem e nos guardam os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que nos anima de vigor o sangue e nos enleva em alegria a alma.
Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o campo onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos sob grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre para que as sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os vinhedos,—se uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e de aves diligentes em buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a cegueira humana pervertida pode quebrar a árvore que nasce ou desrespeitar ruimmente o suor alheio, ergue-se a sebe e entoa os seus mandados,{66} e cobre de fortalezas todo o chão traçando os seus limites à cobiça, à imprevidência, à malvadez e ao próprio dano da inocência instigada por amor—como um gládio de justiça austera repartindo toda a terra entre os seus filhos. Ora severa e rude na mudez, ora coroada de verdura errante, murmurando o agreste murmúrio desprendido pelo beijar de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a selva, o prado, o pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e encantar nossos olhos em beleza.
[II]
Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem esses teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos companheiros que lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no peito, neste peito gerado da fraqueza, o amor fecundo em que ele se arrebate, florindo em bondade e mansidão, se em tua misericórdia não mandares anjos bons que me guardem e dos teus inimigos me defendam?!...
Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus, Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em teu{67} amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua fortaleza arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te ignoram!{68}{69}
[COMPANHEIRO E GUARDA]
Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, a solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que remata o encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez ingrata que despiu de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, semi-morta de avareza e silêncio.
No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na veiga fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da terra alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e glória à luz do sol—a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada no pascigo, o argentino rebater da forja, a espessura ondeante das searas, a viveza das rosas nos jardins, a murmurante faina dos casais, toda a abundância, toda a flor e toda a lida que no vale se expandiram opulentas, na abrigada largueza dos seus campos e nos bastos vilares que ela alimenta.{70}
Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se ergueu um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue fumo! E logo se povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o desamor dos homens e dos astros asperamente votara ao abandono. Foi como se uma afeição dali emanasse e banisse, amorável, por encanto, todo o ermo da gândara desolada.