É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o seu pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra recalcada dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas do rigor da noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura acautelar-se da aragem fria que lhe tolhe os membros, acendendo a fogueira mal nutrida das escassas giestas que juntou.

Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só por magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido exílio em que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até ali mesmo me guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz estranha e poderosa.

E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória este infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na opulência da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.{71}

[REINO INFINITO]

Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit.

(SACRUM COMMERCIUM, cap. III)

[I]

«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»—assim o ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a ilumina-los, daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o mais sublime que ao mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém morrendo no Calvário derramou por amor todo o seu sangue.

É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos, em seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os olhos e a nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o nosso coração a adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra que o nosso amor em tudo desconhece, ou distante dos olhos a não veja ou, estando a nossos pés, a não sintamos enchendo o nosso peito de bênçãos e{72} alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa avareza pervertida que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os homens de os tocarem, e só por isso julga possui-los como escravos do orgulho e da vaidade; são desse peregrino pobre e semi-nu que na estrada os sentiu e, cantando e bem-dizendo o seu enlevo, prosseguiu na jornada, iluminada a vida e exaltada na fragrância e frescor de formosura e na divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em teu poder de eterna graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra que os seus pés calcaram um reino infinito—tão rico quanto foi miserável, indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e malfazeja com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força resumiu seu ser e aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar alento que lhe mostrou um Deus em cada flor, o resplendor duma essência divina imperscrutável; por mais terra que seus pés possam calcar, jamais possui um só e estreito palmo do chão bendito que as flores orvalhadas consagraram. Possuir é admirar e comungar, e só é nossa a terra e tudo aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.

[II]