Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los peço! Também avidamente{73} os apeteço! E reconheço os muitos, gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma se extasia na beleza da vossa criação.

Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que é o vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena.

Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a que ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e seja meu todo e qualquer lugar que os meus pés calquem.{74}{75}

[PODERES DA TERRA]

[I]

Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que cobria de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o vento apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação cobriu sebes e vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o cavador, os jugos e as enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem perpassava o suave esplendor de mansas vidas,—em tímidas boninas, em rebanhos, pascendo repousados a abundância, e nesse fecundo arranco heróico e hercúleo dos servos da gleba generosa—a devastação das águas desapiedadas estende turvamente uma mortalha. E onde se ouvia murmurar a paz, o embalar dos berços carinhosos e estrídulos descantes de ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a inundação roucos pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. Dia e noite, ou brilhe o sol vencendo{76} a tempestade ou a escuridão se cerre impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de morte, de ruína e de crueza.

Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas repetiram-nos. E, sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus nos mandassem seus agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos espectros de desgraça escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me os infernos neste mundo entregue sem resgate às suas penas.

[II]

Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de desalento, a sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em harmonia, sucumbi de fraqueza e de descrença perante os poderes da terra no seu auge! Não me culpes, Senhor, se assim vencido, atónito de espanto e de terror, senti passar a cólera das águas e tremi de sofrer sua inclemência! Não me culpes, Senhor, se um instante de assombro me oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi tiranias indómitas cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos temores e de fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é teu. Mais alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo de que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra», eternamente.{77}

[PERPETUAS DO ROMEIRO]