No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o pastor que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de frescura tão perfeitos como os da primavera em torno que o afagava, cativo o coração e confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a formosura, cantou assim ternuras do seu peito:
«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde de Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se cego o inverno.
«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges tu.
«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem palavras e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento agita lança à terra a bênção,{82} pelo suspirar ardente e pelo amor, pelo desejo bom e pela alegria.»
«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no rumor dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus pés brancos ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções vindas do sul, as palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a repetir-se em todo o espaço.»[[1]]
[[1]] William Morris. The Sundering Flood.
[II]
Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!...
Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente aladas e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração dum peito comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e tocantes como da vez primeira que as sentimos?!... Por que energia oculta se renovam, e nos povoam de visões os sonhos, e nos amparam os passos com o conselho, e nos fazem sangrar o coração, e nos desprendem o sorriso e o canto, e nos elevam na oração divina, as palavras que alguém,{83} um pequenino ser mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos mundos, um dia segredou timidamente na mansidão dos seus lábios mortais?!...
São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza no caminho da tua salvação!