Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria alma, do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas palavras que de contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além, perpétuamente, em todo o espaço», e nos renovam quantas visões de amor nos enlevaram, quanta beleza e graça nos mostraram para além deste mundo os céus e os anjos!{84}{85}

[UNÇÃO DE GLORIA]

[I]

Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a flor que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao sol do meio dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas mesmas virão rasgar-lhe as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.

Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo brilharam curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia, no suave rubor que nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão cedo ela decai e junca o chão e se dissolve e perde emurchecida. E as rosas—é seu fatal destino, bem o sabem! «nasceram para viver uma manhã». O seu frescor é o beijo duma aurora e uma só vez na vida hão-de senti-lo.

Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente, de contínuo cresceu sobre{86} a ruína, e ou a neve embranqueça no trigal a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as seivas dos vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com que protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E caem desfeitas sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na vida curta e breve em que viveram seu sonho de candura e de beleza.

[II]

Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu desejo lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas passageira vivendo longa vida prolongada na robustez das heras caridosas; porque esse seria a tua imagem, bebendo sobre a terra dum só cálice a suprema beleza e o teu poder. Mas, pois que à imperfeição eu fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer, vivesse eu como as rosas um momento de candura e de graça e de perfume, e morresse incensando heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse assim na terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria feliz, abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de doçura.{87}

[SACRO HOLOCAUSTO]

[I]