O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o cavador trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno. Antes que rasgue a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar a provisão de lenhas que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a alegre e rubra chama da fogueira.

No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados quando o sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da terra criadora, entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos que em suor a banhavam fecundando-a—no pinheiral da gândara, a árvore ferida, decepada do chão pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em hercúleo arranco, solta tombando clamores tremendos; e a paz da floresta repetiu-os em ecos de saudade compassiva.{88}

[II]

Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas que flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das manhãs do inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o infinito ser de infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos homens todo o calor que guardas nas entranhas, para agasalhares os berços e o trabalho, para retemperares os seios que amamentam e para aquecer os braços que se tisnam na escravidão da terra redentora!

Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te envia, a ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no pinheiral quando ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa haste que cantara a mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o, Senhor, ouvi tua voz; e, turvado da abundância da tua caridade, implorei-a—não me abandonasse, como não me abandona a fé que eu tenho em teu mistério de bondade e amor.{89}

[SAGRAÇÃO DO ESCRAVO]

[I]

No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre amada, fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos entre rosais corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, bebendo-lhe no suor do rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu lar, o dormir sorridente dos seus filhos, o desvelado afã da companheira no seu mudo lidar e em seus carinhos, quanto lhe afaga o coração e o tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo deixou por essa tirania, para fecundar a terra à qual o prende o rigor de apaixonada sujeição. Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, erguido e corajoso, a pelejar a peleja bendita de criar!

Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. No dissipar de pálidas{90} neblinas, que a madrugada rasga pouco a pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que o luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, por suas vãs loucuras tão cruéis.

Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das crenças, e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na oração toda a cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu deleite.