É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito mal despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros denegridos, convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se fora a haste fria e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação de Deus que anime um ser em Deus criado e nele engrandecido, coração, formosura, o próprio seio que amamenta um filho, supremo alento dum supremo amor, qualquer impulso duma consciência iluminado por visões dos céus, o mais leve passar duma alegria,—morrem, são nada à porta da oficina, escoria inútil que os dragões arrastam àquelas profundezas tenebrosas em que ter alma é um crime, e o pensar e o sentir são uma traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros mercantis.
No declive estreito dos outeiros e na sombra{91} mais húmida das suas pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos em monturo abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de loucura, de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram os mártires que a crueza dos ricos lhes votou.
O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, que adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na ribanceira que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o rosto lindo da donzela ingénua cativada dos olhos que respondem comungando nos seus o seu anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua pura beleza salutar,—tristemente se roja na cidade, turvado por as suas maldições e servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros humildes para em opulências cobrir de oiro a soberba.
E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, sucumbida nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, na resplendente luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, sagrando-lhe a sua crença e o seu vigor, a robustez hercúlea do seu peito e a consagração bendita de sua alma a esse tributo infindo, heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso pão.{92}
[II]
Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os traga confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o destino arrasta na tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em hora sinistra se apartaram do caminho da vossa salvação!... Deixai que chorem sua desventura, e em seu queixume ouvi a minha voz!... Deixai que chorem em doloroso exílio esses proscritos que jamais comungam com o cavador na bênção de criar na terra o nosso pão com o suor do rosto! À luz da aurora que o beijou no monte, juntai as lágrimas dos que vão chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas incenso e ouro e mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração divina do escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da escravidão da terra!...{93}
[MALDIÇÃO]
[I]
Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis dos seus regalos.
Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas, que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos humanos da cidade,—não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre vestes de purpura manchando-as!