Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas faces como um{94} viperino jacto de veneno, a procurar vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo enfermo e a empedernida e bruta animalidade.

Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das crianças.

E nenhum mais cruel tenho encontrado!

Em nenhum—e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e perversão.

[II]

Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o abrasado e ingrato espaço, tem de voltar{95} ao poiso desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.

Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte, oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e lacrimoso, o mantimento que carece para viver.

[III]

Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, comum, vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez acrescentar à indigência a crueldade, torturando, somente por lhes sentir as agonias, aquelas mesmas vidas que criou, carne da sua carne, almas da sua alma?!...

Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão{96} na sua vontade e anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou irmãos nas ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa e em tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis que dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu triunfo, convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao capricho!... Por maldição de trágico império, em tenebrosa queda degradado, foste sujeito, louco, em teu orgulho de virtude e de crença e de isenção, a repassar de fel a dor dos próprios filhos!{97}