[PROFISSÃO DE FÉ]
[I]
Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»
Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.
Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor de Deus no cálice e{98} na hóstia se empana esmorecendo em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das paixões mundanas.
[II]
Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...
Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus mandados, no remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda a esperança, em afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao enlevo no Eterno, cansado deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos ao azul, onde cintilam astros diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, nome santíssimo, para que tu me acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a tua vontade; para que me dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, assim como aos meus devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação e de todo o mal me livres para sempre.»
E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso, confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.{99}