[I]
Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, fui saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol esquivo e brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do pinhal.
A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem renová-los mais profundos a palidez de frígidos crepúsculos.
Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível, sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão de transitórios sonhos luminosos.
E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do mês de Santiago. Ali me defenderam dos seus{100} fogos as vastidões umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar das águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, desfalecida à míngua de frescor.
Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como se alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do juncal a regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado alegremente, vibrando firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus dentes a bonina mais branca, e o malmequer, e a mais esbelta haste do azevém onde já despontavam as palmas rígidas em que guarda a semente.
E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os sentidos de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus gestos.
Mas quanto vem diferente e vem mudada!...
Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os olhos confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir ingénuo da açucena?!...
Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o inverno; também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de seus{101} enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada sob o feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu de orgulhosos robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos espinhos ímpios dos silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das manhãs, é agora a lenheira paciente, mortificada e débil, imagem do trabalho e do sofrer, aquela ceifeira airosa que ainda há pouco foi para mim missionário feliz da alegria sagrada de viver, afortunada voz e alto pregão das seduções da terra, claro espelho de todo o seu amor.