[II]
Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso e a doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se a criação inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a beleza íntima e a do mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só tu és eterno, Senhor! em tua caridade e teu saber, e se a suprema harmonia, que é o teu sonho, não distingue o prazer e a dor, a caricia, o flagelo, a rosa e o cardo, por igual divinos{102} em teu divino ser—se é esse o teu querer, bendita seja a hora em que encontrei a dríade enferma do inverno que em seu dissipado encanto e em sua mágoa correu a ensinar-me a crer em teus desígnios e me segredou louvor e obediência, a inteira abdicação em teu mistério!{103}
[MONJAS DO OUTONO]
[I]
Ouvi cantar no monte as urzes roxas.
Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da manhã que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus braços, trigueiros como a terra onde se criam.
Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente que o tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo horizonte.
E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só quer dar vida.
Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado arbusto se afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão votado a rastejar porque o pascer contínuo dos{104} rebanhos mais não consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do roble, entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que conduz à azenha encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos que só conhecem os rigores do norte—cantaram sempre e com a mesma voz as urzes roxas, monjas do outono.
Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, renuncia da opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o encurtar do dia já promete, um sereno caminhar para a austeridade, aquele desprendimento sobre-humano que descreu das grandezas deste mundo, da ansiosa tormenta da ambição, e procura o resgate em singeleza—tudo eu ouvi cantar às urzes roxas, monjas do outono bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade entre ameaças ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos reinos religiosos da sua paz.