[II]

Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que no outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez obcecada que pôs sua ambição em querer{105} muito, em vez de a consagrar à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao universo, não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das urzes roxas, monjas do outono!

Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, seu valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, pressentimentos que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, seus flagelos, suas privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de crueldades sem fim, inexoráveis!{106}{107}

[A TERRA ESCRAVA]

[I]

Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde, serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.

Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua, como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão sonhando caridade e gloria.

[II]

A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o mantimento e guia{108} da jornada que à tua fé nos leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!... Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores em que o solitário orgulho pena a culpa!{109}

[MISTÉRIOS DE CERES]