[I]
O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.
E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa, via ingrata.
São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.
A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto{110} a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever cumprido,—todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e no crime resvalaram—o pão gerado para criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.
O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos céus e só a religião suspeita e adora.
[II]
Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir, prostrado em{111} gratidão, tua eterna bondade generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute o suor do rosto!...
É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.{112}{113}